Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1954.
Na entrega do diplom a e do cheque, sentado na prim eira fila, lá estava ele, esquálido, a palidez, os olhos fundos, com ido pela doença, a cabeça derrubada entre as m ãos, Hilda o sustentava, foi a últim a vez que o vi. Mesm o enferm o, condenado, viera abraçar o confrade e com panheiro. De tudo quanto se passou naquele dia, nada m e deixou m ais abafado, m ais tenso de em oção quanto a presença de quem ia m orrer daí a um m ês. Ai a inj ustiça dessa m orte, José Guilherm e em plena m aturidade criadora, ai a inj ustiça!
Rio de Janeiro, 1954.
Internacionalismo
Sabendo que estou de viagem para a Europa com escala na Polônia, Ziem binski m e procura, a aflição o transtorna, problem a delicado, pede-m e aj uda. O governo da Polônia há algum tem po o pressiona para que ele retorne à pátria a qualquer preço, as autoridades do Ministério da Cultura dão-lhe urgência, m arcam prazo, exigem resposta im ediata. Não saberão por acaso que o cidadão polonês Zbigniew Ziem binski j á não existe, existe um brasileiro com esse nom e, ator, diretor, tão brasileiro ou m ais do que os aqui nascidos?
A guerra trouxe Ziem binski para o Brasil, a ele, a Turkov e a Madam e Stipinska. Todos sabem o que a vinda e a perm anência de Ziem binski significaram para o teatro brasileiro: um a coisa antes dele, outra depois. Na Polônia deixara um filho, em duas ocasiões levei-lhe algum dinheiro enviado pelo pai. Um rapagão, cursava o Conservatório Dram ático de Varsóvia, apresentei-o ao poeta Iwaszkiewicz* que, segundo soube, o protegeu.
*Jaroslav Iwaszkiewicz (1894/1980),poeta polonês.
Turkov, após algum as m ontagens extraordinárias, zarpou para Israel, Madam e Stipinska deslum brou nos palcos do Rio, o apelo da pátria levou-a de volta para ser a prim eira-dam a do cinem a e do teatro poloneses. Com o retorno da atriz deu a louca nos polacos, queriam o m etteur-en-scène fosse com o fosse, tinham necessidade dele, apelavam para seu patriotism o, m estre Ziem binski estava atropelado. Só via um a m aneira de escapar à im posição do Ministro da Cultura, de convencer os responsáveis: a recusa do pecê brasileiro. Se o pecê se opusesse à sua partida, os poloneses deixariam de insistir, para algum a coisa havia de servir o internacionalism o proletário. Era indispensável que eu fosse portador da negativa do Partido brasileiro, que a levasse aos altos escalões do polonês, só assim o deixariam em paz. Vendo-o tão aflito, disse-lhe que ficasse descansado, o Partido exigiria sua perm anência no Brasil.
Ao dar-lhe garantias arriscava pouco, conhecendo os intestinos do Partido tinha certeza que a opinião dos m andatários seria, com o foi, a de atender ao pedido. Na reunião com a direção para receber as últim as instruções coloquei o problem a de Ziem binski, obtive o acordo, levei o recado e o transm iti. Nem tudo era erro lá por cim a, existiam acertos. Ao expor o problem a de Ziem binski só não disse que adiantara a resposta sem a ter, era piroquete m as nem tanto.
Ponta Delgada, 1989.