Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 148 de 262

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Bahia, 1980, Paris, 1990.

Concordância

Tony Cartano* sem pre se m ostrou generoso a propósito das traduções de m eus livros, sobre eles escreveu elogios por m ais de um a vez. Em artigo no Magazine Littéraire porém , baixou o pau, de rij o, em Os Subterrâneos da Liberdade** quando apareceu a edição da Messidor, incrim inando o autor por ter-se suj eitado aos cânones do realism o-socialista ditados por Zdanov. Tony conta-m e de sua surpresa ao receber carta m inha, da Bahia, concordando com as críticas feitas ao rom ance.

Dez anos depois, Dom inique Fernandez*** dedica um a página em Le Nouvel Observateur a falar bem de m im e de m eus rom ances, ao aplaudir o livro Conversations, de Alice Raillard — além das traduções de Tereza Batista e de Tenda dos Milagres, entre outras assim perfeitas, devo a Alice o renom e de seu livro e a am izade.

*Tony Cartano, romancista francês.

**Les Souterrains de Ia Liberte, éditions Messidor.

***Dominique Fernandez, romancista francês.

Dom inique desestim a, porém , O País do Carnaval, que vem de aparecer em francês sessenta anos após eu tê-lo escrito, denuncia em m eu prim eiro rom ance a influência m alsã das letras europeias, im itação barata. Escrevo-lhe um a carta para dizer de m inha concordância com a crítica feita a O País do Carnaval, salva-m e saber que dois anos depois do prim eiro livro publiquei Cacau, outra coisa, liberto para sem pre dos m odism os europeus.

De Tony Cartano j á era am igo quando lhe escrevi sobre os Subterrâneos, de Dom inique passei a ser am igo a partir da carta que lhe enviei a propósito de seu artigo sobre o livro de Alice Raillard.

Paris, 1948.

Presente de aniversário

João Jorge com pleta um ano de idade, nossa pobreza im pede festas e presentes, ainda assim Zélia reúne am igos no quarto do Hotel Saint Michel, em torno de um ponche de cham panhe e fraises du bois: Alfredo Varela, André Kedros, Renaud de Juvenel*, Adelita e Hector Polleo**, Misette*** — que é de casa — e a turm a brasileira: Vasco, Jacques, Zora, Henda, Santoro, Jam ile e Israel Pedrosa, Castiel, Paulo Rodrigues. Madam e Salvage, a dona do hotel, com parece sobraçando garrafas de conhaque, Carlos Scliar traz um a lata de goiabada brasileira.

*Renaud de Juvenel, escritor francês.

**Hector Polleo, pintor venezuelano, Adelita, sua mulher.

***Misette, Marie Louise Nadreau, marchand d'art.

Escrevo um rom ancinho, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, história de am or, do am or im possível de um felino e um passarinho, m eu presente para o aniversariante a fim de lhe ensinar a ter horror aos preconceitos. O conto term ina m al com a vitória do preconceito: a andorinha casa com um rouxinol, o gato parte para a solidão pior que a m orte. Se o escrevesse hoj e, o rom ancinho term inaria com a vitória do am or, a derrota do m alefício: eu era j ovem , ainda não acreditava no im possível.

Não m e lim itei ao livro. Na intenção de bem educar João Jorge com pus a letra de um a canção guerreira para que ele a cantasse com Misette no reino quotidiano do Jardim do Luxem burgo, nos passeios m atinais no Boul'Mich'. Pensei que ainda a guardasse na m em ória, ledo engano. Recorro a João Jorge: de todos os presentes até hoj e por ele recebidos, foi o de que m ais gostou, ainda a cantarola, sabe a letra inteira. João m anda que Jorginho, o filho caçula, atenda ao m eu pedido: