Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1942.
Cheque
Posto em liberdade, após alguns m eses de xadrez, a polícia política dá-m e oito dias para sair do Rio, ir para a Bahia, cidade onde devo perm anecer com residência obrigatória e obrigatória apresentação à Delegacia de Ordem Política e Social um a vez por sem ana — j am ais m e apresentei.
Não tenho um centavo, não sei com o m e arranj ar para partir, cum prir a ordem . Aníbal Machado* vem em m eu socorro obtém com seu irm ão Cristiano, diretor de com panhia de navegação fluvial no rio São Francisco, futuro candidato à Presidência da República, passagem de graça em navio de sua em presa, de Pirapora a Juazeiro, a ideia de navegar o São Francisco m e encanta. Dessa viagem irá nascer Seara Vermelha, rom ance que escrevi em 1946.
*Aníbal Machado (1894/1964), escritor.
Falta-m e, porém , dinheiro para o resto, para o trem do Rio a Pirapora, para as despesas durante a viagem , a passagem de Juazeiro à Capital baiana, onde buscá-lo? Eis que recebo recado de Bibi Ferreira: soube de m inha libertação, quer m e falar, tem assunto a tratar com igo. Casada na época com Carlos Lage, em presário rico, Bibi m ontara com panhia própria, m arca-m e encontro no Teatro Fênix onde se apresenta em peça adaptada por Miroel Silveira de A Moreninha, de Macedo. Inicia sua esplêndida carreira de sucessos, antes representara ao lado de Procópio Ferreira, seu pai, j untos fizeram um Molière extraordinário: intérprete de Molière fora de série, se Procópio houvesse nascido francês estaria na galeria dos gênios do palco, dos im ortais.
Assisto ao espetáculo: radiante de j uventude e sedução Bibi contracena com Graça Melo*, esbanj a talento, dom ina a plateia que a aclam a, conversam os em seu cam arim . Bibi alm ej a viver no palco a figura fatal de Eugênia Câm ara, côm ica portuguesa do século passado, a grande paixão, o desvairado am or de Castro Alves, encom enda-m e peça sobre a vida do poeta dos escravos, não pode haver tem a m ais apaixonante, Bibi acha que sou o indicado para escrevê-la. Nunca escrevi teatro, não sei com o fazê-lo, não m e tenta, com eço a explicar por que não posso aceitar a proposta, antes que diga não Bibi tom a da caneta, assina um cheque de vinte m il cruzeiros, coloca-o na m inha m ão. Balanço a cabeça, de acordo, aceito a prebenda, j á tenho o dinheiro para as despesas de viagem . Bibi não quis sequer contrato, confia em m im , de assinatura basta a do cheque. Saio do Fênix com os cobres e a prebenda.
*Graça Melo, ator.
Quebro a cabeça durante cerca de dois anos: não nasci dram aturgo, sofro de desvio profissional, só sei conceber em term os de rom ance. Finalm ente com m uito esforço e pouca técnica coloco um a peça no papel, de início intitulada O amor de Castro Alves, passou a se cham ar O Amor do Soldado para evitar confusão com o ABC. Em 1944 vou ao Rio, levo os originais e os entrego a Bibi, m as ela j á não está à frente da com panhia, não tem possibilidades de m ontar a peça encom endada. Fica com o texto datilografado, segundo ela, o m anuscrito e a dedicatória valem os vinte m il cruzeiros do adiantam ento, não lhe devo nada.
Prim eira e única incursão na dram aturgia, pecinha m ais ruim , a culpa é de Bibi. Felizm ente j am ais foi levada ao palco e eu não reincidi, não repeti a tentativa: variadas vezes têm -m e proposto cheques gordos para escrever novela de televisão, obra de teatro. Mesm o continuando pobre e necessitado, não voltei a em bolsar o cheque e aceitar a prebenda. Bastou-m e um a vez quando Bibi Ferreira quis viver Eugênia Câm ara. Fico im aginando que im ortal Eugênia não seria a côm ica portuguesa na paixão de Bibi: am orável e dissoluta, na abolição com o poeta, seu herói, na cam a com seu m enino Ceceu, a com ê-lo e traí-lo, devassa com o está nos versos de am or que para Eugênia ele com pôs em desvario: Eu quero ver teu peito intumescido I ao sopro da volúpia arfar erguido...