Navegação de Cabotagem
Nova York, 1963.
Proclam aram -na Rainha dos Poetas Jovens das Alagoas, o bate-papo se prolongou noite a fora, seis j ovens ardentes, plenos de talento, Luciana ouviu-lhes os poem as até a m adrugada. Perm aneceram j untos até a barra da m anhã, quando foram assistir ao nascer do sol à beira da lagoa. Nem sequestradores em busca de resgate, nem terroristas, nem tarados sexuais, poetas apenas, belos rapagões.
Na Pedra do Sal*, à brisa do m ar, Luciana m e conta a aventura alagoana, o sequestro, em verdade rapto a recordar os da j uventude, doces lem branças. Dá-m e os nom es dos sequestradores, vou receber livros e poem as m anuscritos, vão m e escrever. Escrevem -m e até hoj e, enviam -m e brochuras, poem as, recortes de j ornal, acom panho-lhes a carreira, os sucessos. O grupo se dissolveu, a diretoria provisória abdicou do m andato, m as para os j ovens poetas das Alagoas Luciana continua Rainha da Poesia, conselheira e inspiradora.
*Pedra do Sal, casa de praia de J. A.
Nova York, 1963.
A tinta e o sangue
Alfred Knopf decide publicar a tradução em língua inglesa de Grande sertão: veredas, pede-m e prefácio, dá-m e pressa. Eu o redij o no quarto de hotel, desabituei-m e de escrever a m ão, custa-m e esforço, nele defendo duas teses que causarão escândalo nas províncias literárias do Brasil.
Com eço por afirm ar que Guim arães Rosa não é rom ancista m ineiro e, sim , baiano, Montes Claros não é planalto de Minas, é sertão da Bahia. Pode parecer brincadeira m as em presto à ideia significação literária. Desej o aproxim ar a ficção de Rosa de Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, escritor baiano, nascido m ineiro, distanciá-la de O mameluco Boaventura, de Eduardo Frieiro, m ineiro de nascim ento e letras. Quero filiar a criação de Rosa à narrativa nordestina, escrita com sangue, não com tinta.
Ainda discuto tinta e sangue ao recusar os term os em que a crítica brasileira, em sua grande m aioria, situa a grandeza do escritor. Todos os louvores, levados ao exagero do faniquito, da histeria, são dedicados à escrita do autor de Sagarana. De fato, por m aiores sej am os elogios à linguagem de Rosa — a língua brasileira é um a antes dele, outra depois —, são todos j ustos e m erecidos. Mas contesto as afirm ações dos louvam inheiros que se m asturbam ante a pesquisa e a fantasia linguísticas de Rosa: não reside na escrita o fundam ento de sua obra, não é ela que faz eterna e universal.
Por m ais extraordinária sej a a im portância da escrita, ela se reduz à proporção em que a obra de Rosa ganha m undo e se faz traduzir em línguas diferentes. Em espanhol j á se atenua, em italiano, em francês se lim ita ainda m ais, em inglês, em alem ão o trabalho da língua se dilui, a invenção das palavras, a novidade da frase vai se desfiando, a teia de aranha se desfaz. O que restará dela quando a ficção de Rosa chegar ao chinês, ao coreano, ao georgiano, ao arm ênio, em vez do alfabeto latino, a com posição em hieróglifos, signos, ideogram as? O que restará da palavra fabricada no laboratório, da frase com posta com a tinta na ponta da caneta? Já nada restará da escrita, da linguagem , da invenção form al.
Restarão, im ortais, o sangue da gente recriada pelo criador de personagens, a cor, o odor, os sentim entos, os locais, os hábitos descritos pelo criador de am bientes, restarão o Brasil e o povo brasileiro, o sertão desm edido, a desm edida bravura, a ânsia e o am or, restará o sangue quando a tinta se apagar de todo. A criação de Guim arães Rosa conquistará o m undo e perm anecerá no tem po, não porque ele pesquisou e inventou um a escrita nova, diferente, ela será universal e eterna porque Rosa escreveu com sangue e não com tinta as histórias do seu povo.