Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 96 de 262

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Port-de-France, 1991.

No m esm o gabinete de Ce Soir voltam os a nos encontrar os três com unas latino-am ericanos para a entrega das assinaturas obtidas. Zélia sagrara-se cam peã absoluta, folha repleta, m etade da Câm ara de Deputados, Senadores, a negritude em peso: Senghor, Aim é Césaire, d'Arboussier, Houphouet-Boigny *. Sem exteriorizar a satisfação que m e ia n'alm a, sem tripudiar — quem era eu? —, exibi a cópia do telegram a com as assinaturas de Sartre e de Sim one. Aragon tom ou da folha de papel, exam inou os j am egões, balançou a cabeça, decerto exercendo a autocrítica propôs: o nome dele deve encabeçar a lista. Não encabeçou: o nom e de Sartre seguiu-se ao do poeta de Les Yeux d'Elsa — sei poem as de m em ória —, os cardeais não aceitaram : isso não, Louis, primeiro tu, ele depois.

*Léopold Senghor, Aimé Césaire, poetas, deputados; Gabriel d'Arboussier, Felix Houphouet-Boigny, deputados e dirigentes do Rassemblement Democratique Africain.

Tornei-m e am igo de Sartre e de Sim one, viaj am os j untos pela Europa, no dia m ais longo do ano passam os fom e em Helsinque, Percorrem os o Brasil de norte a sul, em 1950 ele fez publicar Cacau em Les Temps Modernes, em 1961 foi a vez de Quincas Berro d'Água. Certa feita, na década de setenta, alm oçávam os com ele e Sim one no Lipp, Sartre m e revelou que sabia da aposta com Argon: inconfidência de um m em bro do Colégio de Cardeais, os cardeais não m erecem confiança.

Rio de Janeiro, 1932.

A cadelinha lulu

Alta m adrugada, curtindo a bebedeira, de volta da farra, constatam os ao chegar a Copacabana, Ray m undo Magalhães Júnior* e eu próprio, que um a linda e bem -tratada cadelinha lulu, alva de leite, perfum ada, nos acom panha. Tínham os vindo a pé da Lapa onde havíam os ido às putas caras: acontecia em dias de pagam ento. Magalhães era habitue de m ais de um a pensão, feio com o o diabo, sortudo com as m ulheres, fam a de m achão. Eu m e desenvolvia por entre as dom ésticas de Copacabana e Lem e, vez por outra um a patroa para desenfastiar.

*Raymundo Magalhães Júnior (1907/1981), escritor.

Recordávam os a pensão onde havíam os bebido e praticado, ficava na rua Conde de Lage, m as não fazíam os a m ais m ínim a ideia de que artim anhas teríam os usado para que a cadelinha nos seguisse na longa m archa para a zona sul. A visão da pequena com panheira de viagem curou-nos do resto da cachaça, lá voltam os nós para o alegre rendez-vous em busca da proprietária do anim al. Encontram os a pensão em alvoroço, a dona da cadela fora de si, num m ar de lágrim as, loira com o os trigais m aduros do verso célebre, propunha-se francesa. Atracou-se com a lulu, mon amour, mon petit, foi a festa. Magalhães aproveitou-se, ficou para a festa. Sóbrio e sozinho retom ei a m archa na fím bria da m anhã.

Port-de-France, 1991.

Mulataria

Na m airie de Port-de-France Zélia e eu som os recebidos por M. le Depute Maire que outro não é senão nosso velho am igo Aim é Césaire, grande poeta da língua francesa, m estre das Antilhas e da negritude. Trago para ele os dois volum es da nova tiragem das poesias de Gregório de Matos na edição de Jam es Am ado. Falam os de poesia, de m estiçagem , de m úsica, o nom e de Dorival Cay m m i vem à tona, Cay m m i andou por aqui, trazido por Annik Thebia-Melsan*, cantou para o povo da Martinica suas cantigas da Bahia.