Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1956.
— Por que você im pôs Sônia Braga à Globo para o papel de Gabriela?
— Com o é que você sabe que eu im pus Sônia Braga à Globo?
— Em São Paulo é público e notório, todos sabem .
— Porque Sônia é m inha am ante.
Mansur olha para m im , hesita por um instante, explode em riso, aceita o uísque, desde então som os am igos. Depois chegam os dem ais, Sônia pela m ão fraterna de Edwaldo, faço sala à estrela da novela:
— Tenho m uito prazer em conhecê-la. Som os am antes, sabia?
Sônia Braga, m inha filha, três vezes m inha filha, por Gabriela, por Dona Flor, nos vídeos de televisão, nas telas dos cinem as, na cam arinha do candom blé do Gantois sou seu pai pequeno, Sônia, cavalo de Yem anj á galopando sobre o m ar.
Rio de Janeiro, 1956.
O sobrevivente
Valério Konder*, que não m e retirou sua estim a quando deixei de m ilitar no Partido Com unista, dá-m e notícia da cam panha desencadeada contra m im , pela direção do Partido, no estrangeiro: disseram cobras e lagartos, fui tratado de traidor e vendido. Diógenes de Arruda Câm ara, na época um a espécie de dono do Partido (e da verdade), declarou num a reunião do Com itê Central: em seis m eses ele deixará de existir com o escritor e hom em de esquerda. Vam os acabar com ele.
*Valério Konder, médico sanitarista.
Nas fofocas que m e chegam a esse propósito, um a m e entristece: Pedro Motta Lim a**, m eu velho am igo e cam arada de longo cam inho, andara fazendo m inha caveira m undo afora, na URSS, na Bulgária, em Cuba, sei lá onde. Entristeço-m e, m as com preendo: com unista im em orial, bolchevique com provado, obediente às ordens recebidas, m eu bom Pedro deve ter dado seu recado de coração apertado, disciplina é disciplina, não lhe guardo rancor. Outros cum priram as ordens alegrem ente, sem pre fui visto com desconfiança pelos intelectuais cooptados à direção partidária, o que esses disseram e fizeram não chegou a m e entristecer.
O que m e adm ira até hoj e é que a afirm ativa do enraivecido dirigente não tenha se convertido em realidade, que sua previsão não se tenha cum prido. Sobrevivi, quem o diria.
**Pedro Motta Lima (1889/1966), jornalista.
Sendo o antidoutor por excelência, o antierudito, trovador popular, populachero, escrevinhador de cordel, penetra na cidade das letras, um estranho nos saraus da inteligentzia, universidades da França, da Itália e do Brasil fizeram-me doutor honoris causa, vamos lá saber por quê.
No Brasil, a alegria superou a honra, pois na Universidade da Bahia elevaram-me doutor ao lado de Carybé e de Caymmi e na do Ceará vestiram comigo a toga do saber na solene cerimônia Eduardo Portella e Aldemir Martins, quatro doutores de verdade, criadores de cultura. Se não me pretendo mestre como eles, deles sou mabaça, corre em nossas veias o mesmo sangue mestiço do povo brasileiro, condiciona nossa arte e nossa literatura.
Paris, 1985.
Erudição falha