Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1946.
Ora pois, após cruzar a porta, aturdido pela escuridão, Calasans Neto deixara-se ficar no corredor do apartam ento, não chegara a entrar no quarto e eu não m e dera conta. Ao saber do acontecido acom eteu-lhe ataque de loucura, queria a pulso retom ar com o pretexto de ter esquecido o boné, quem sabe a esposa do Vieira continuava nua com o eu a vira.
— Teu boné está em tua cabeça, Cala. Dorm iste no ponto, agora é tarde.
Partim os para Marrakech, lá estivem os durante um a sem ana. Constatei que nem as m aravilhas da cidade, nem a m edina, nem sequer o topless das suecas à beira da piscina no oásis, nada conseguia retirar a cabeça de Calá da m ulher de seu Vieira que ele, ai, não vira nua por preguiça.
Voltam os a Casablanca, fom os nos hospedar no hotel sem baratas onde havíam os reservado côm odos. Na recepção, antes m esm o de entregar o passaporte, Calá quis saber de seu Vieira.
— Vieira? O senhor se refere ao brasileiro da m ulher bonita. — com as m ãos o funcionário traçava-lhe as form as do corpo: — Quelle fem m e, cher Monsieur! — estalou a língua, som concupiscente, inform ou: — Viaj ou ontem para o Rio de Janeiro.
Aí fica a história verdadeira. O m ais que contam , o artista arm ado de binóculo, trepado num a palm eira para brechar quarto do casal Vieira, e outras estripulias, não passam de invenções a engrossar o folclore do m estre Cala, Rei de Itapuã, Im perador do Abaeté.
Rio de Janeiro, 1946.
Antissalazarismo
Subo à tribuna da Assem bleia Nacional Constituinte, sou deputado eleito por São Paulo, leio e com ento carta que venho de receber de Portugal. Escrevem -m e dois j ovens, declaram -se m eus leitores, leituras clandestinas, pois os livros de m inha autoria são proibidos na m etrópole e nas colônias portuguesas.
Requisitório contra o salazarism o, a carta denuncia a opressão reinante, depoim ento com ovente, os signatários apenas saíram da adolescência, m oços que se iniciam nas lides da cultura: no quadro da ditadura do Estado Novo português a ação cultural se entrem eia com a luta política. No Brasil estam os em lua-de-m el com a dem ocracia reconquistada pelos exércitos das Nações Unidas, a presença dos pracinhas brasileiros nos cam pos de batalha da Europa aj udou a derrubar o nosso Estado Novo, em parte cópia do lusitano, m eu discurso é ouvido com atenção, ainda não há quem se atreva a assum ir a tribuna para contestar a denúncia, defender o lúgubre ditador.
Os j ovens signatários da carta cham am -se José Rabaça e Antônio Alçada Baptista, m ais de vinte anos depois irei conhecê-los pessoalm ente. Convidado em casa de Rabaça, industrial e j ornalista, no sopé da Serra da Estrela, ele m e pergunta: recorda-se de uma carta que provocou discurso seu na Câmara? Lembra-se das assinaturas? Não se lembra? Eram a de Antônio Alçada Baptista e a minha.
Som os hóspedes de Antônio Alçada Baptista na casa de pedras que ele possui na serra, a casa m ais bela do m undo, segundo Ody lo Costa, filho, não discuto, m as aj unto que é tam bém a casa m enos côm oda do universo. Foi ele quem nos trouxe a j antar com os Rabaça. Ensaísta brilhante e polêm ico, Antônio Alçada Baptista, ainda não é o rom ancista que irei ler e am ar daí a alguns anos. Mas j á o adm iro e estim o. Mesm o na discordância de posições e ideias, com o não adm irar-lhe a escrita cristalina, a seriedade e a cultura de intelectual europeu, com o não estim ar a flexibilidade quase brasileira, a ânsia de entender e conviver?