Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 152 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Bahia, 1985.

O discurso

Enquanto os peritos organizavam os trabalhos da Assem bleia Nacional Constituinte*, durante cerca de um a sem ana subiram à tribuna representantes das diversas bancadas para o histórico da ditadura do Estado Novo e da luta pela dem ocracia. Já não recordo todos os oradores, m as lem bro ainda discurso de Otávio Mangabeira, em nom e da UDN, peça oratória dita de im proviso por ator de grande classe. Consta que Otávio escrevia os discursos, depois os burilava, decorava e os recitava diante do espelho ensaiando a gesticulação, no Parlam ento os im provisava da tribuna, um espetáculo.

*Em 1946, Câmara e Senado recém-eleitos reuniram-se em Constituinte.

Para falar em nom e da bancada com unista nesta prim eira rodada de retórica parlam entar foi designado Claudino José da Silva deputado pelo Estado do Rio, o prim eiro negro retinto a ocupar cadeira na Câm ara Federal — esse, sim , o prim eiro. Hom em de poucas letras, soletrava com dificuldade, pessoa de fina educação, a fina educação do povo, apesar de possuir apenas um a m uda de roupa, era dos congressistas m ais elegantes, o m ais elegante de todos, segundo Ivete Vargas.

Marighela e eu, quem sabe por baianos, fom os nom eados redatores dos discursos a serem pronunciados por cam aradas pouco afeitos à escrita. Nossa prova inicial, o discurso lido por Claudino, ganhou foros de peça incom parável, ficou fam oso nos anais da Constituinte de 1946 pela extensão. Dividíram os o terna em quatro partes, duas a serem redigidas por Carlos, duas por m im , pusem o-nos ao trabalho, resultou oração veem ente, patética e sobretudo longa. Escritas as quatro partes tornou-se necessário j untá-las num todo com unidade, passam os a estabelecer o que Marighela intitulou de pontes, as pontes a ligar as quatro partes o núm ero de páginas duplicou.

Da colaboração, trabalho consciencioso e um tanto divertido, resultou um senhor discurso, de fôlego, de m uito fôlego: o bom Claudino levou quatro horas e vinte e cinco m inutos, contados no relógio, a pronunciá-lo da tribuna da Assem bleia. Parlam entares eleitos após oito anos de ditadura, na euforia dem ocrática do após guerra, no início dos trabalhos da Constituinte senadores e deputados com pareciam em m assa às sessões, sentavam as bundas nas cadeiras, não tugiam nem m ugiam , escutavam os oradores com atenção, evitando cochilar, aplaudiam forte. No caso de Claudino ouviam com atenção redobrada por se tratar de representante da bancada com unista, ainda por cim a negro, deixá-lo falando sozinho seria tirar certificado de reacionário com ranço fascista.

Claudino na tribuna gaguej ando o discurso interm inável, Marighela, suplente de quarto secretário sentado na ponta da m esa diretora, acenava para m im , piscava o olho, gozando a caveira de pessedistas e udenistas. Puxávam os as palm as, ele lá em cim a, eu cá em baixo, os colegas de todas as bancadas, unânim es, acom panhavam . Quando por fim Claudino desceu da tribuna e fom os todos abraçá-lo, Nestor Duarte, m oleque com o ele só, m urm urou-m e ao ouvido: que peça, puta merda!

Bahia, 1985.

Sic transit gloria

Desço a Ladeira do Pelourinho com Jacques Chancel que film a um program a sobre a Bahia para a televisão francesa. Os capitães de areia — que fornecem aos turistas verdades históricas em troca de m oeda de vintém — nos cercam , apontam para o sobrado, hoj e um hotel, onde m orei adolescente em 1927, eu tinha quinze anos: