Navegação de Cabotagem
Maceió, 1933.
Ao fim da tarde vou com Antônio Celestino*** a um a exposição de pintura na Galeria Renot, os óleos de Henrique Oswald recriam as igrej as da Bahia num fundo de m istério, Celestino com pra um quadro, com pro outro. Gastar dinheiro num a hora dessas, incerta, não será loucura? Não vou concorrer para que os m ilicos restrinj am m inha vida, não m odificarei m eus hábitos. Penduro a igrej a de Henrique Oswald no quarto de dorm ir.
***Antônio Celestino, crítico de arte e bancário, português.
Maceió, 1933.
Visita
Em m eados de 1933 em barquei num paquete do Lloy d Brasileiro, do tam anho de um a caixa de fósforos, o Conde de Baependi, arribando do porto do Rio de Janeiro para o porto fluvial da cidade de Penedo, no rio São Francisco, no então distante Estado de Alagoas. Levava-m e o obj etivo único de conhecer pessoalm ente o rom ancista Graciliano Ram os, nom e àquela data sem qualquer ressonância j unto aos leitores e aos críticos: ainda não havia editado nenhum livro. Acontecera-m e ler, porém , os originais de Caetés, tom ara-m e de tam anho entusiasm o que decidi viaj ar até Alagoas para com unicar ao autor m inha adm iração, de viva voz. Tinha eu vinte e um anos incom pletos e acabara de publicar Cacau.
Desconhecido do público e da crítica, o nom e de Graciliano com eçara no entanto a ressoar nos m eios literários do Rio de Janeiro; com o tem po viria a afirm ar-se no conceito geral com o o principal ficcionista da cham ada geração de trinta. O poeta e desenhista Santa Rosa, risonho m ulato paraibano recém -chegado ao Rio — via Maceió, onde servira no Banco do Brasil — trouxera notícia de um literato alagoano, ex-com erciante, ex-prefeito de cidade do interior, por fim funcionário público, na ocasião, se não m e engano, Diretor da Im prensa Oficial. Os textos dos extraordinários relatórios, apresentados por ele ao deixar a Prefeitura de Palm eira dos índios, circularam de m ão em m ão no lim itado território literário da então capital da República e das letras pátrias.
Não eram realm ente vastos os lim ites geográficos desse território, iam da Travessa do Ouvidor, endereço da Livraria e Editora Schm idt, até a Cinelândia, onde funcionavam o m ovim entado consultório do poeta (e m édico) Jorge de Lim a e a não m enos m ovim entada redação do Boletim de Ariel, na sede da Ariel Editora. Nesses locais — a Editora José Oly m pio só se m udou de São Paulo para o Rio em 1934 —, os literatos se reuniam para falar de cultura e da vida alheia, com entar livros, elaborar proj etos, afirm ar ou desancar glórias estabelecidas ou nascentes. População literária pequena, produção editorial reduzida, todos os autores se conheciam , liam -se todos os livros. Penso que naqueles idos não passávam os de uns trezentos os indivíduos que se dedicavam às letras em todo o país. Hoj e só no bairro do Rio Verm elho existem m ais de cem , na cidade da Bahia m ais de m il, Nosso Senhor do Bonfim sej a louvado!
Em 1933 os ecos da Sem ana de Arte Moderna esvaíam -se, afirm ava-se o Rom ance de Trinta, expressão literária dos m ovim entos políticos e populares que resultaram na revolução da Aliança Liberal. Em verdade o ciclo ficcional pós-m odernista se iniciara em 1928, no rastro da Coluna Prestes, com o lançam ento de A bagaceira de José Am érico de Alm eida. Aliás coube a José Am érico, Ministro da Viação do prim eiro governo Vargas, revelar aos confrades residentes no Rio a existência de um rom ance ainda inédito de autoria do tal Prefeito de Palm eira dos índios, o dos relatórios.
A notícia deu lugar a um telegram a do poeta e editor Augusto Frederico Schm idt ao desconhecido rom ancista pedindo que lhe enviasse os originais, ele os editaria em livro. Os originais chegaram e foram fazer com panhia a vários outros nas gavetas da secretária no gabinete ao fundo da livraria onde o poeta batia papo, nam orava por telefone, escrevia seus poem as e buscava com o arranj ar dinheiro para levar adiante o program a da Editora: naquele então a m ais im portante editora de literatura brasileira.
Os frequentadores habituais da livraria folheavam os originais depositados nas gavetas da m esa do poeta, por vezes levavam um m anuscrito para ler em casa. Devo a publicação de O País do Carnaval, m eu rom ance de estreia, ao fato de Tristão da Cunha*, figura influente na vida literária da época, ter levado consigo os originais que na gaveta fatal aguardavam vez, para term inar em casa a leitura iniciada no gabinete do poeta enquanto o esperava. A opinião de Tristão da Cunha foi decisiva para que Schm idt não só o publicasse com o para que ele escrevesse um prefácio.
*Tristão da Cunha, diplomata, escritor, tradutor de Shakespeare.
Li o m anuscrito de Caetés, fiquei em polgado — não faz m uito reli o rom ance de estreia de Graciliano, não m udei m inha opinião de rapazola: a atm osfera da cidadezinha, a escrita adm irável. Outros livros de Graça são m aiores, o rom ancista cresceu m as Caetés persiste inteiro. Foi tal o im pacto que m e causou a leitura dos originais que resolvi conhecer o autor pessoalm ente, tom ei passagem no Conde de Baependi, ao chegar a Aracaj u estava noivo, sucedia a cada viagem pela costa do Brasil. Um ano depois, em 1934, Schm idt publicou o prim eiro rom ance do m estre Graça, logo depois saiu São Bernardo em edição Ariel.
O Conde de Baependi deixou-m e em Penedo, desde então um a de m inhas cidades preferidas, de quando em quando tom am os o carro, Zélia e eu, vam os dorm ir em Penedo para ver a m anhã nascer sobre o rio São Francisco, trazida nas barcaças e nas canoas, andar em m eio ao casario, parar à som bra das igrej as e dos conventos. Certa feita levam os conosco nossa am iga Antoinette Hallery *, deslum brou-se em tcheco e em francês: piekne krasnie! oh la la!
*Antoinette Hallery, editora tcheca
Andando em bonde-de-burro, ainda circulavam na Penedo de 1933, esperei o autom óvel que Valdem ar Cavalcanti*, com coluna de livros em gazeta de Maceió, sobrinho do Prefeito, enviou para m e buscar. A viagem , em estrada de terra e buracos, durou o dia inteiro, cheguei a Maceió no fim da tarde, coberto de poeira, no hotel tom ei um banho, saí em busca do rom ancista, fui encontrá-lo num bar, bebia café negro em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra — todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da roda. Ficam os am igos na m esm a hora.
*Valdemar Cavalcanti (1912/ 1982), jornalista.
Desde aquela tarde até a sua m orte, acom panhei dia a dia, com adm iração e am izade, a vida de Graciliano Ram os e sua criação literária, poucas se lhe com param . Cheguei de Santiago do Chile às vésperas de sua m orte, escalado para falar à beira do túm ulo, não consegui passar das prim eiras palavras. Depois sua filha Luísa tornou-se m inha irm ã ao casar-se com Jam es; Fernanda, neta de Graciliano, flor dos Ram os e dos Am ado, é m inha sobrinha, m isturaram -se nossos sangues.