Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 154 de 262

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Rio de Janeiro, 1960.

 

Reeleição

Sentindo-se popular, aplaudido pelo povo devido ao caráter dem ocrático, progressista de seu governo — a im plantação da indústria autom obilística, a construção de Brasília —, quando se aproxim ava o fim do m andato, Juscelino Kubitschek sonhou com a possibilidade de reeleição. Não era fácil, a Constituição proibia, m as... Consultou Otto Lara Resende, o oráculo lhe disse: quem sabe um manifesto encabeçado por homens de cultura poderia dar início ao movimento. Fui contactado j untam ente com alguns outros escritores.

Para com eço de conversa, Eduardo Portella e eu pusem os de pé um a carta de reivindicações referentes à política interna e externa, reivindicações reclam adas por m uitos intelectuais e pelas m assas populares. Se Juscelino se com prom etesse com tal program a talvez fosse possível lançar-se um a cam panha pela reeleição. Eram quinze ou vinte itens, quantos e quais j á não guardo m em ória, sei, porém , que o Presidente ao exam iná-los concordou com todos m enos com um . Aquele que reclam ava posição independente do Brasil na guerra pela independência das colônias africanas suj eitas ao im pério luso: exigíam os que o governo brasileiro deixasse de apoiar o poder salazarista na reação contra os m ovim entos independentistas, deixasse de ser sabuj o e se proclam asse neutro. Juscelino, até então entusiasm ado com nosso program a, arrepiou carreira:

— Isso não. Não posso fazer um a coisa dessas com doutor Antônio.

Doutor Antônio era Antônio de Oliveira Salazar, os políticos brasileiros, m esm o os que se intitulavam progressistas, lam biam as botas do ditador de Portugal. Quem veio rom per com tais dependências, históricas e hum ilhantes, da política externa do Brasil foi m esm o Jânio Quadros, queiram ou não aqueles que escrevem a História ao sabor das ideologias.