Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 175 de 262

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Bahia, 1972.

Cinquentenário

Telefonem a do Rio, a voz de Cay m m i, inim itável, canta um a cantiga nova, que beleza!, audição em prim eira m ão, privilégio. — Que achas da oração que acabo de com por para Menininha? Gostas?

Mãe Menininha do Gantois festej a cinquenta anos de sacerdócio, de elevação a m ãe-de-santo, era um a m enina quando da sucessão de Pulquéria, sua avó de sangue. Na história dos candom blés da Bahia não se tem notícia de festa igual. Para as com em orações Dorival com pôs a Oração a Mãe Menininha: a Oxum mais formosa está no Gantois / a mãe da ternura está no Gantois, o canto irrom pe e se eleva em todo o território do Brasil. Cary bé, Pierre Verger, Jam es Am ado, Waldeloir Rego, Mário Cravo, Dorival Cay m m i e eu constituím os a com issão dos festej os, para o presente Manolo Moreira nos cedeu a preço de banana colar antigo, de ouro, um a placa foi afixada na porta do Axé: ... há cinquenta anos Menininha do Gantois zela, no posto de iyalorixá, com exemplar dedicação e perene bondade, pelos orixás e pelo povo da Bahia.

Assim tão grande e bela nunca vista, a festa cresceu no terreiro sagrado do Ilê Ily a Om in Axé Iy am ansê, a m ultidão sobrou na praça em frente, encheu as ladeiras e as ruas em derredor. Na sala prestam reverência o Governador, o Prefeito, ex-governadores, senadores, deputados, industriais, banqueiros, com erciantes, os grandes do m undo e o povo da Bahia, reunidos. Pela m anhã o Abade de São Bento, dom Tim óteo, rezou m issa no altar da Virgem Maria, Oxum é Nossa Senhora da Aparecida. Menininha está além e acim a das divergências de classe e de credo, é a Rainha Mãe do Brasil. Filha de escravos, só não nasceu escrava porque j á havia a lei do ventre livre: essa a nossa realidade m ágica, goste quem quiser, quem não quiser que se dane de raiva.

Na m adrugada daquele dia das com em orações, no segredo da cam arinha, Oxalá chega das lonj uras para saudar a Mãe da bondade, a Oxum que preside o destino e sabe o am anhã. Cavalgando Carm em , sua m ontaria, Oxalá dança e canta em louvor de Menininha, conduz o ebó do cinquentenário e o deposita em m inhas m ãos, vou colocá-lo aos pés do encantado, no coração do m istério. Honra m aior não m e foi dada em m inha vida.

Paris, 1949.

Perde-se a mão

Conheci Michael Gold em 1937 quando estive em Nova York, voltando do México para o Brasil. Judeus sem dinheiro, prim eiro (e único) rom ance de Mike, obtivera acesso m undial, no Brasil de trinta foi um estouro, ainda m e lem bro do artigo com que Genolino Am ado o saudou: quem ler esse livro e não se comover é um cretino — m ais ou m enos isso. Na década de oitenta Alfredo Machado o reeditou, passou despercebido.

Fui procurá-lo na redação de The Daily Worker, o j ornal do pecê norte-am ericano: com unista m ilitante, Mike assinava um a coluna diária. Contei-lhe de seu livro no Brasil, sim patizam os, levou-m e a um teatrinho no Harlem onde representavam peça sua. Reencontrei-o em Paris, em 1949, nossos hotéis eram próxim os, víam o-nos todos os dias, viaj am os j untos pelo m undo socialista, congressos às pam parras. Num vôo para Praga, dois m otores do quadrim otor pifaram sobre a Alem anha, íam os lado a lado, dem o-nos as m ãos esperando a m orte, ainda bem que a m orte não chegou.