Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 218 de 262

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Navegação de Cabotagem

Xi-An, 1986.

*Jorge Lins Freire, político, Elcy, sua mulher.

Xi-An, 1986.

Mercado

Soterrados durante séculos, os exércitos de terracota, guerreiros m ontados em cavalos, hom ens e bestas em tam anho natural, quantos não sei, serão m ilhares, nem os chineses sabem pois não com pletaram ainda as escavações. Vem gente do m undo inteiro para ver, não pode existir nada de m ais im pressionante, só a m uralha da China se com para ao desfile gigantesco Em udecem os, dem oram os a ver para poder contar, Zélia fotografa o tem po todo.

Duas noites seguidas conseguim os sair do hotel às escondidas de nossos acom panhantes chineses, designados pelas autoridades do governo e do pecê para zelar pelo conforto e garantir a segurança dos hóspedes brasileiros: recolheram -se cedo, foram dorm ir, a visão dos exércitos é deslum brante e trem enda.

Vagabundeam os pela cidade, deparam os com o m ercado, m isto de feira livre e circo pobre, a festa da com ida popular, m aravilhosa, a m ais m aravilhosa. A feitura do m acarrão, espetáculo de m alabarism o, o saltim banco que suspende a m assa no ar, a estende e a encom prida, é um prodígio. Jam ais nenhum de nós com eu tão bem , m ãos e beiços lam buzados.

Estam os a fam ília toda, Zélia, João Jorge e Rízia, Palom a e Pedro, viaj ar com os m eus para m im é o m áxim o, o que de m elhor pode m e acontecer. Dem oram os horas de barraca em barraca, com em os tudo que nos propõem , é barato dem ais e por dem ais gostoso. Arroz de Cantão feito sob nossas vistas, ao escrever estas linhas sinto-lhe de novo o gosto: bom dem ais, fartam o-nos.

Na segunda noite um dos intérpretes nos viu sair, sorrateiro nos acom panhou de longe até o m ercado, voltou correndo ao hotel para avisar ao chefe. Vieram todos, eram sete responsáveis, queriam porque queriam nos conduzir ao hospital para exam es de saúde, a com ida podia ter-nos feito m al, com ida grosseira destinada ao estôm ago do povo: os ideólogos, os intelectuais em geral, aqui e lá, fazem porca ideia do povo. Tive de ser im positivo para evitar o pior, consegui.

Nossa estada em Xi-An foi abreviada, fugir ao controle tornou-se m ais difícil. Ainda assim em Xangai escapam os após o j antar, varam os a noite nas ruas da cidade, apesar de não existir prostituição na China conform e nos garantiu o dirigente, vim os as putas no cais com os m arinheiros.

Ilhéus, 1929.

Humilhação

Brigávam os no Bataclan, o cabaré pegava fogo, todas as noites na disputa do xodó das raparigas de casa posta pelos coronéis do cacau, de um lado a banda dos com etas, os caixeiros-viaj antes, nação de chapéu-palheta, cabelo de topete à Epitácio Pessoa*, paletó alm ofadinha, bons de valsa e tango, do outro a banda dos estudantes em férias, frangotes a cantar de galo nas regalias de filhinhos de papai. Por um dá cá aquela palha a com petência degenerava em conflito, pancadaria grossa. Certa noite deram um tiro no pé de Zequinha Adam i: meu pai me acuda que me mataram! Por m uitos anos exibi nas costas da m ão direita os cortes de navalha do com eta dublê de capoeirista: no brilho da arm a eu elevara a m ão para defender o rosto.