Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 242 de 262

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Navegação de Cabotagem

Purchase, 1979.

De retorno dias depois, ao entrar na sala, Lina m e perguntou:

— Leste o cenário?

Disse que não o havia lido, estava onde ela o pusera, na estante. Respirou aliviada: ainda bem que não o leste, não tem o que se aproveite, o Brasil não é nada do que escrevi. Nada do que ela havia ouvido e im aginado, do que pusera em sua história, era diferente; por vezes o oposto. Ali m esm o rasgou as páginas do roteiro: vou escrever outro, agora sei, irás gostar, m e disse. Assim aconteceu, o novo cenário recriava o Brasil com os olhos e o talento de Lina. Pena a falência do Banco Am brosiano, liquidou o proj eto às vésperas de se iniciarem as film agens de Tieta.

Ah, a m áfia do cinem a italiano, adorável. Dinheiro escasso, film agem só de raro em raro, m as que prazer de criação, que encanto de convivência, que calor de am izade. Eu os adoro, os m afiosos da irreverência, da graça, da loucura solta, não fossem assim não teriam realizado o m ilagre do cinem a italiano, único, a exaltação do hom em , o m ais m iserável é um com andante, um sonhador, a m ulher m ais puta é um a m adona, um a santa sem pecado, Ia m am m a.

Outro dia, quando o assassinato de Chico Mendes estava nas m anchetes, Bini m e telefonou de Rom a para a Bahia: quanto queres para escrever um roteiro de cinema, a história de Chico Mendes, os seringais, os garimpeiros, os índios, a floresta virgem, já estou pondo a produção de pé, te pago em dólares, já imaginaste como vamos nos divertir na Amazônia?

Purchase, 1979.

Os charutos e o vinho

A cada portador eu enviava para Alfred Knopf charutos baianos com o nom e do gringo gravado nas caixas, repetido no anel em volta da regalia, charutos de São Felix enrolados nas coxas das m oças ribeirinhas. Fernando Suerdieck*, herdeiro da indústria e da tradição, fornece-m e o presente no capricho — e de graça. Fum ante e entendido, Alfred m e garante serem os charutos da Bahia os m elhores entre os m elhores, tirante os de Cuba, hors concours. No particular a opinião do editor ianque coincide com a do escritor soviético Ily a Erem burg — outro freguês m eu ou sej a dos charutos baianos, só que para Ily a os m elhores de todos eram os do Mercado, os charutos de vintém .

*Fernando Suerdieck, industrial.

Ora, de volta da viagem aos States, portador do presente que eu m andara, Alfredo Machado desata a língua em inconfidência: Knopf lhe pedira para nada m e dizer, não se deve alardear tristezas, m as acontece que ele perdera o gosto do charuto. Todos os dias, num ritual preciso, fum ava o prim eiro às dez horas em ponto da m anhã, no banco do j ardim , ao lado de Helen. Pois naquele dia acendeu o charuto, um puro cubano, puxou a prim eira baforada e não lhe sentiu o arom a, soube-lhe sem graça, não lhe dava m ais prazer, não o fazia partir nas asas do sonho, Alfred perdera o gosto do fum o do charuto. Nunca m ais voltou a sentir a volúpia da fum aça, a viver o requinte das m arcas, das procedências, quando se perde o gosto é de todo e para sem pre.

— Rezo a Deus todos os dias para que m e conserve até à m orte o gosto do vinho, se o perdesse o que m e restaria?