Navegação de Cabotagem
São Paulo, 1933, 1938, 1945.
— Cante para seu avô o hino da vitória.
Sete anos de m alícia, o m oleque se executa:
Joãozinho / Piça d'Aço / Foi à caça / Foi à caça / Joãozinho / Piça d'Aço / Que caçou? / Que caçou? / Bucetinha / Bucetinha / Piça d'Aço / Já caçou / Joãozinho / Pica d'Aço / Já caçou
Para ser cantada com a m úsica da Internacional.
São Paulo, 1933, 1938, 1945.
O revolucionário
O j argão esquerdista reduziu a significação das palavras revolução e revolucionário, deu-lhes conteúdo ideológico estreito, lim itado, retirou-lhes a am plitude e a grandeza. Tam bém a direita concorreu para a falsificação, não fez por m enos: classificar o golpe de estado m ilitar de 1964 de revolução é desconhecer, deturpar a verdade dos fatos, cada qual sua salafrarice. Revolucionário passou a identificar qualquer borra-botas a m ilitar em partido ou grupelho dito operário ou m arxista, os teóricos de oitiva nos diversos desvios do leninism o, do trotskism o, do stalinism o, do m aoísm o, os sim patizantes do sistem a soviético de governo, enquanto pessoas, fatos, livros realm ente revolucionários perderam o direito a serem considerados com o tais. Revolução virou etiqueta de ditadura, revolucionário é corruptela. Quem sabe agora, com o desm ascaram ento das ideologias, possam os reencontrar a dim ensão, a am plitude real de palavras de conteúdo tão denso e expressivo, espero que aconteça.
Devido a tal deturpação o aparecim ento de livros determ inantes, Casa-grande & senzala, o rom ance A bagaceira, não foi considerado fato revolucionário no âm bito do pensam ento e da criação nacionais. Figuras decisivas na evolução da sociedade, portadoras do ferm ento revolucionário, não foram reconhecidas com o tais, ao contrário, se viram tachadas de conservadoras de reacionárias. Assim sendo, rótulos os m ais diversos e absurdos foram pespegados à personalidade revolucionária de Flávio de Carvalho, arquiteto, artista, inovador, agitador — às experiências, ao debate desencadeado: da rua ao palco, do proj eto à construção, do salão de arte ao figurino provocador, deles tudo se disse sem se dizer o essencial. Em certas ocasiões o apuparam , noutras condenaram , j am ais foi concedida à sua obra e à sua atuação im portância que um a e outra m ereciam e continuam a m erecer. Se alguém renovou no cam po da cultura brasileira, esse alguém cham ou-se Flávio de Carvalho, gigante paulista na estatura e na valentia, no arroj o. Na coragem de pensar, de em preender, de realizar.
Eu o conheci quando fui a São Paulo pela prim eira vez, em 1933, em com panhia de Santa Rosa. Hospedam o-nos em casa de Tarsila do Am aral* e Osório César**, na ocasião m arido e m ulher — haviam recém -chegado de Moscou, ir à URSS naquele então era aventura cercada de dificuldades, viagem de espantos — realizavam um a exposição de cartazes soviéticos, insólitos e rom ânticos, no Clube de Artistas Modernos, organism o criado e dirigido por Flávio de Carvalho, na época o centro de cultura m ais sério do Brasil, o que colocava a proposta m ais avançada. Ali pronunciei conferência sobre as crianças nas plantações de cacau, autografei o livro ilustrado por Santa Rosa, assisti ao Bailado do Deus morto, de Flávio, que espetáculo!, logo proibido pela polícia política. A censura não dava tréguas ao CAM, trazia-o no cortado, vigiava-lhe as prom oções, a m ontagem da peça de Oswald de Andrade, O homem e o cavalo, viera de ser vetada, as autoridades de olho, prontas para intervir e proibir: Flávio personificava a subversão em m archa, am eaçava a ordem e a m oral.
*Tarsila do Amaral (1886/1973), pintora.
**Osório Taumaturgo César (1895/1965), psiquiatra.
Fiquei am igo de Flávio nessa ocasião e o fui enquanto ele viveu. Entre os artistas brasileiros foi ele sem dúvida o que m ais ousou, estendeu a ousadia ao lim ite extrem o, refiro-m e por exem plo aos desenhos da m ãe em com a, recordo o escândalo. Foi aquele que levou a pesquisa m ais longe, não se lim itava nem se deixava intim idar pela crítica, pelo desdém , pelo ataque dos revolucionários profissionais, os de carteirinha. Revolucionário foi ele, Flávio de Carvalho, o artista, o cidadão.
Desconheceram seu estudo sobre a psicologia das m assas, relatada em Experiência n° 2***, livro que está a exigir reedição urgente, publicam tanta besteira sobre psicanálise por que não trazem de volta às livrarias a pesquisa pioneira de Flávio, realizada no perigo das ruas e não na m asturbação dos gabinetes? Riram dele nos j ornais quando exibiu nas avenidas de São Paulo**** o traj e ideal para nosso clim a: hoj e parece-nos inconcebível com o se escreveu tanta tolice sobre o desfile do saiote. Flávio estava avançado sobre o tem po.
***Experiência n° 2, publicado em 1931.
****Em novembro de 1956.
A ação era-lhe tão necessária quanto a criação, todo ele ím peto e generosidade, fundador do Clube dos Artistas Modernos, organizador do Salão de Maio. Colaborei com ele na preparação do Segundo Salão, em 1938 — vivi uns tem pos em São Paulo à procura de trabalho, o Estado Novo fazia-m e a vida difícil.
Geraldo Ferraz e eu fom os ao Rio em busca de quadros, Santa Rosa nos aj udou, Geraldo inventara o Club dos Mulatos Gordos assum ira a Presidência, nom eara Santa Rosa o prim eiro vice, o segundo era Gobbis*. Inventei os títulos dos quadros que Flávio pintara para o salão, m e fez presente de um deles, A avó, m as de im ediato o tom ou de em préstim o, nunca m ais o devolveu.
*Vittório Gobbis, (1894/1968), pintor.
O atelier de Flávio ficava em edifício situado na esquina de Barão de Itapetininga com a Praça da República, adem ais de atelier, era sala de reunião, lar, cam po de batalha sexual — sobravam as candidatas, artistas e sim patizantes, tantas, inesquecíveis, Flávio as devorava, não escapava um a. De um a quero citar o nom e, negra de beleza peregrina, foi esposa de pintor surrealista, alem ão negreiro. De natureza dadivosa, divertia-se polígam a, que corpo, Senhor m eu Deus, possuo retrato seu pintado por Rebolo*, m as só lhe m ostra o rosto, o dem ais nada ficava a dever. Não, não vou citar-lhe o nom e, para quê?, m ais do que o nom e vale a lem brança, a recordação. No m esm o andar do edifício m orava Quirino da Silva**, pintou m eu retrato, um senhor retratista.
*Francisco Rebolo Gonzales (1902/ 1980), pintor, craque de futebol.
**Quirino da Silva (1897/1981), pintor.