Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 251 de 262

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Paris, 1990.

No Escoriai, nos dias do curso de verão da Com plutense, penso em Jacques e na conversa que terem os, espero ser-lhe de utilidade, para m im é quase um filho, era rapazola quando o tom ei pela m ão.

Chegam os a Paris, corro para o telefone, ligo para o apartam ento da filha de Jacques, onde ele se hospeda, Irene atende, não contém o pranto, Jacques m orreu dois dias antes, enfarte fulm inante.

Paris, 1990.

O Victor Hugo

Deus ou o Diabo, quem m e deu a capacidade, o dom de relacionar-m e, estabelecer conhecim ento, ligar-m e por laços de estim a? Da j uventude livre na cidade da Bahia, nas ruas, becos e vielas, nas encruzilhadas, nas casas-de-santos, nas igrej as, nas escolas de capoeira, no cais dos navios e dos saveiros, cortando as águas do golfo e as do rio Paraguaçu, da m inha adolescência creio provir a facilidade com que m e entendo com as pessoas, sim patizam os, fazem o-nos conhecidos, am igos, íntim os, fraternos. Am igos eu os possuo nos quatro cantos do m undo e nos arredores, refiro-m e a pessoas que conheço, de quem privo a intim idade, não m e refiro aos leitores, esses são o capital e os j uros do escritor. Poucos m ilhares ou m ultidão sem conta, deles vive o rom ancista, deles se alim enta na m esa de trabalho, na m esa do de-com er. Em certo m om ento leitores e am igos pessoais se m isturam na m esm a confraria de afeto e de cum plicidade.

Em quatro anos de repetidas e largas tem poradas no pied-à-terre do Quai des Celestins, neste bairro do Marais onde Paris nasceu, travei conhecim ento com dezenas de pessoas, com elas tenho tratado, relações casuais, transform aram -se em convivência afetuosa, com a cum plicidade de Paris. Paris possui sobre as dem ais m etrópoles a vantagem de ser um aglom erado de pequenas cidades onde as pessoas se conhecem , conversam , convivem . Ninguém pode saber da cidade inteira, im ensa, cada um tem sua Paris, a cidadezinha onde vive, trabalha, diverte-se, transa e sonha. A m inha Paris, durante cerca de quarenta anos, foi a Rive Gauche, o cinquièm e e o sixièm e arrondissem ents, conheço com o as palm as de m inhas m ãos o m apa das ruas, dos squares, das praças, das livrarias, dos quiosques de j ornal, dos cafés, dos bistrôs, posso m archar de olhos fechados pelo Boul'Mich', por Saint-Germ ain, no Luxem burgo João Jorge brincou, m enino, na Igrej a de Saint-Germ ain-de-près batizei Nicolás Bay, dito Nikili, filho de André e de Marie-Pierre.

Faço o aprendizado do quatrièm e, do troisièm e, do bairro do Marais, aqui ao lado fica o Hotel de Sens, vem do século XI, no Pont Marie debruço-m e sobre o Sena, para onde quer que m e volte, estou cercado de beleza. Ando a pé, ruas, avenidas, boulevards, sento-m e com Zélia em banco de j ardim na Place de Vosges, acom panho a construção de l'Opéra Bastille, visito o Hotel de Ville, o Museu Picasso, o Centro Pom pidou, o Hotel de Sully, percorro a Ile de Saint Louis, entro em livrarias, descortino o panoram a, a Notre Dam e, a Universidade, a sinagoga, o Instituto do Mundo Árabe, desfruto da paisagem , convivo com o saber, a cada canto, em todos os m om entos a beleza. Envolvo-m e na luz, nos ruídos, na atm osfera, no burburinho para tocar o sangue, as veias, a carne viva, a hum anidade, sentir as batidas do pulso e do coração de Paris: sou cidadão desta cidade, lim itado e ignaro m as parisiense em m inhas tripas de glutão, nos pés de andarilho, na cabeça do escritor, no peito do com batente — esta é a Cidade, a dos direitos do hom em , da dem ocracia e da civilização. Perlustro as ruas do Marais, faço am igos. De alguns desej o dar rápida notícia, transcrever os nom es, longe de Paris m e lem bro deles, ouço-lhes a voz, escuto-lhes o riso.

Uns até j á se m udaram do Marais, m as não os esqueço na ciranda do bem -querer. O velho j ornaleiro do quiosque ao lado da boca do m etrô Saint-Paul, ele e a m ulher revezavam -se no negócio, por vezes coincidiam , eu chegava escoteiro ou acom panhado por Zélia em busca de j ornais e de revistas. Fizem os cam aradagem devido quem sabe aos cabelos brancos, os deles e os m eus, as esposas ainda não os têm , eram vítim as (ou heroínas?) do sotaque de nossos diálogos de m aridos oprim idos, sem direito a voz e a voto. Desatávam os em queixas, expúnham os reclam ações. Enquanto Zélia protestava e revidava, a senhora j ornaleira ouvia em silêncio, o rosto sério, penso que não achava graça nas pilhérias. Um dia não se conteve, m ediu o m arido fuxiqueiro, rosnou entre dentes: ordure!

Durante m eses e m eses, o velho do quiosque de j ornais não soube de m im senão a ancianidade e a caduquice, soltava a língua e a verve. Um dia viu m inha foto publicada, ficou sabendo de m eu ofício, conheceu m eu nom e sem lustre porém im presso no j ornal. Desde então tornou-se form al, passou a tratar-m e com deferência e distância, term inaram -se as pilhérias conj ugais. Ao regressar do Brasil não m ais os encontrei, a ele e à sua esposa, se haviam aposentado, passado o negócio a outro dono. Para não lhes sentir a ausência todas as tardes m udei de quiosque de j ornal, aportei no bigodudo da rue Saint-Antoine, sabe de política, dá-m e dicas, não sabe do escritor, ainda bem .

Quero dizer duas palavras de carinho sobre Regina e Rom eu Sparagano, m arido e m ulher, ele prim eur de fruits com com ércio estabelecido nas ruínas da prim eira igrej a de Saint-Paul*, ela j ornalista. Após correr o apartam ento que term inam os por com prar parei diante do balcão de frutas, provei cerej as e m orangos, disse à Zélia: habitantes do Quai aqui com prarem os frutas e legum es para a sopa, assim aconteceu, assim acontece diariam ente. Apesar da j ornalista logo descobrir o ofício do freguês, as relações floresceram em estim a, os Sparagano nos adotaram , ele siciliano, Zélia italiana de São Paulo, confraternizam nas receitas de pratos, risotos e lasanhas, ele a presenteia com invenções de m olhos para o m acarrão, Zélia prepara gulodices brasileiras, crem e de abacate, doce de banana em rodinha, para oferecer ao casal — e à belle-m ère, Madam e Suzanne, am or de pessoa, contabilista contabiliza os lucros do negócio. De pequenas coisas se nutre a am izade, que é, com o sabeis, o sal da vida, o sal e a pim enta. Leio no Guide Gault Millau o elogio de Les Halles du Marais: conserve, en plein coeur du Marais, tout le charme des petits commerces de plein vent d'autrefois.

*Demolida em 1799.

Quem m e apresentou a Françoise Raoult foi Jam es Am ado: vem com Luísa a cada ano gozar as benesses da civilização e conviver com os irm ãos, hospedam -se no Hotel de la Septièm e Art, hotel de Calá e Auta Rosa, de Lulu de Paris*, de Laurita e Luisinho: os brasileiros são tratados nas palm as das m ãos, carregados ao colo por Yolene e Michel Koenig.

*Maria Lúcia Pessoa, sobrinha de Calasans Neto.

Jam es surge de cabelo cortado, com placente e elogioso, coisa rara, anunciando qualidades: tem uma barbeira aqui ao lado, trabalha bem e rápido, é bonita e culta, vive lendo, enquanto manejava a tesoura e o pente conversamos sobre James Joyce, tive a sensação de que era Antônio Houaiss quem cortava meu cabelo. Além do mais não cobra caro: Jam es dá-se à econom ia, o hábito enraizado lhe vem dos tem pos de j ornalista a soldo do Partido Com unista cadê o soldo? o gato com eu, de funcionário da Petrobrás desem pregado pelos m ilicos.

Segui o conselho do m ano, entreguei a j uba branca aos cuidados de Françoise, revelou ter lido livros m eus, discutiu literatura e arte, assim se passa aqui: as pessoas lêem , frequentam os m useus, vão aos concertos, sabem as coisas. Jam es tem olho, Françoise é bonita com o ele constatou, acrescento que é casada, o m arido é pensador político, um retado, se vivesse no Brasil passaria diariam ente na televisão — pensador político e sexóloga é o que m ais dá no vídeo brasileiro —, Zélia e eu fom os j antar com o casal, o m onsieur ditou-nos aula sobre a Iugoslávia. Incorporei Françoise à trupe de m inhas pupilas, clube internacional presidido por Anny -Claude Basset.

Outra am iga estabelecida no bairro, Madam e Neuve-Eglise, pede-nos notícias de Calasans Neto a cada vez que Zélia e eu entregam os nossos pés difíceis a seus cuidados: podologue da m aior com petência, tanta que não m e atrevo a classificá-la calista ou pedicure. Calá chegara a Paris sem poder andar, os sabichões de Nova York não lhe curaram as unhas encravadas, saiu do gabinete da rua du Petit Musc dançando o sam ba. Madam e Neuve-Eglise não o esquece. Luiz Carlos Tornaghi, em presário de capacidade e posses, viaj a do Rio a Paris para consultá-la — vale a pena pagar o preço da passagem, sai barato, diz-m e na satisfação dos pés novos em folha gastando sola de sapato nas ruas do Marais.

Na rue Saint-Antoine, m inha artéria predileta, com ércio de alim entação capaz de abrir o apetite do suj eito m ais biqueiro, m eu am igo Abitbol Gady m e espera à porta do Sole Mio, com ércio de especialidades italianas: tenho uma coisa para si, entrega-m e um a cassete, canção cantada nas rádios de Israel pela cantora Rita, m úsica de Ram y -Kleintchen, o tem a da com posição é um certo rom ance, intitulado Mar Morto, de um certo foliculário da Bahia, o livro tem sucesso em idiom a hebreu, Abitbol sabe de m eus livros em Paris e em Tel-Aviv, acom panha-lhes a traj etória, o com erciante de produtos italianos é um intelectual, am igo de Am os Oz, de escritores e artistas j udeus, patriota israelense m as não fanático, o sectarism o é estranho à sua natureza, possui o sorriso m ais terno desse m undo e um a esposa tão sim pática quanto ele, dona Wanda, aj uda-o no Sole Mio. Um a vez eu os vi tristes, o rosto em som bras, foi durante a Guerra do Golfo, o filho m ais velho correra a alistar-se no exército de Israel. A guerra term inou, o sorriso voltou aos lábios do casal, o filho soldado está a salvo. Abitbol e eu trocam os livros e conselhos de leitura.

Já que falo de produtos italianos, falarei de dona Tereza, não se cham a Tereza e, sim , Huguette, o m arido é André Cherpin. Passei cerca de um ano em Londres escrevendo Tieta do Agreste, Zélia a fiorentina, a vêneta, era freguesa do negócio intitulado Tereza, nom e da proprietária, a dona do Ville de Turin parece com a italiana de Londres, vende os m esm os produtos, é dotada de idêntica gentileza, para nós ficou sendo Tereza algum tem po até que as relações de freguesia se estreitaram .

Dar conselhos não é de m eu gosto, quase sem pre significa introm issão na vida alheia, im plica assum ir responsabilidade m as não posso m e exim ir de aconselhar — quem sabe j á o fiz no contexto destas páginas — aos visitantes que queiram com er do m elhor e do m ais fino a frequência aos pequenos restaurantes, aos bistrôs. Em Paris com e-se bem em qualquer parte, inclusive nos restaurantes de luxo, bem e caro, são para gente de paladar m ilionário, m inha am iga Regina Sim ões, m inha com adre Carm o Vilaça e o senhor seu m arido Ministro e Acadêm ico, o ricalhaço do tabaco Mário Portugal. Mas para com er o supra-sum o, para regalar a alm a, deve-se ir aos restaurantes fam iliares, frequentados apenas por franceses, os bistrôs onde não acontecem turistas, apenas nacionais, saídos todos dos rom ances de Georges Sim enon: servem -se pratos de sabor incom parável a preço côm odo.

O conselho vale de introdução a alm oço na Enoteca, a j antar em Au Pont Marie, quem seguir o m eu alvitre vai lam ber os beiços e m e agradecer a sugestão. Os italianos ficam na rue Saint-Paul, em m eio aos antiquários, os franceses no Quai de Bourbon, o j antar dá direito à visão da lua sobre o rio Sena.

Foi Moustaki quem nos levou a Au Pont Marie e nos apresentou à Magali, a m atriarca: por leitora m e recebeu com alvíssaras, ofereceu cham panhe. O restaurante é em presa fam iliar, Jean, o pai, e Laurence, a filha, atendem às m esas, Jean Charles, o filho, é o m estre-cuca, Magali cobra a conta, a fam ília Guiffoul, encantadora. Já que m e m eti a sebo, entro em detalhes, a em enta é toda de prim eira ordem m as eu recom endo o feuilleté de roquefort, o confit de canard, o cassoulet, perguntem a Roberto Da Matta, a Adilson Monteiro Alves, a Zequinha Sarney se quiserem com provar, Antônio Alçada Baptista, perito em senhoritas e em culinária, m eu convidado, ficou freguês de carteirinha. Laurence era solteira quando a conhecem os, casou, j á teve filho, nosso neto torto, tem os vários.

Tem os vários netos de araque, dois deles são netos de sangue de Madam e Christine Moulian, m otorista que nos conduz a Orly, nos recebe em Charles De Gaulle, nas saídas e chegadas, não habita no bairro m as está inscrita na roda de am igos, de papel passado.

Os italianos da Enoteca m e estim am por escritor e por hom em de esquerda, são sim paticíssim os, não fossem italianos: o bistrô vive cheio, não tem m esa que chegue, a freguesia cresce sem parar. Pino Mitrani e Gianni Mainardi com andam cardápio e vinhos, cozinha e adega da Itália, requintadas. Quem o diz não sou eu, é la signora Giannola Nonino, a da grapa e dos prêm ios literários, autoridade m áxim a, veio alm oçar, repetiu.

O bairro floresce em livrarias, vou de um a em um a, o vício de folhear e com prar livros m e acom panha desde a j uventude da Libreria Española de dom Paço, a Praça da Sé da Bahia, eu ia pelo últim o Vargas Vila. Na Virgule busco livros ilustrados por Dubout, livraria especialista em bandedessinée, na Librairie Henri IV sou recebido com dem onstrações de apreço por Madam e Françoise Butin e Monsieur Albert Zenouda, som os vizinhos, a bela livraria fica a dois passos da porta do edifício, livros de arte, estoque de novidades, quando sai tradução de autor brasileiro Madam e Butin m e telefona: saiu um livro de Moacy r Scliar, está vendendo m uito bem .

Existem no bairro duas Librairie Epigram m e, frequento pouco a da rue de la Roquette, de instalação recente, a m inha é a m ais antiga, a da rue Saint-Antoine, freguês bem visto até m e fiam quando esqueço de levar o cartão de crédito. Os Moreau — Françoise, Gerard, Laurence, m ãe, pai e filha, o ativista Christoph Mollo, a gentil Marie Despierres, são nossos parentes, gente de nossa fam ília e os filhos colom bianos de Françoise e Gerard são nossos netos m ais velhos de Paris. Na Epigram m e Zélia assinou a tradução francesa de seu Jardim de inverno* com a livraria repleta de leitores e am igos, a gente do bairro com pareceu em peso. A livraria é a casa do escritor, repito o lugar-com um , para dizer que tenho várias casas em Paris onde cultivo o vício, os palácios da FNAC, o Oeil et Écoute na rue Vieux Colom bier, no sixièm e, o doce lar da Epigram m e Saint Antoine. Sou confidente de Laurence, não m e conta seus am ores, m as os adivinho.