Navegação de Cabotagem
Dobris, 1950.
Encara a roda presa à narrativa, os coronéis em riso, atento o letrado Nelson, o m enino em transe, cofia o bigode branco:
— ... para com pletar a zom baria não tive tesão de propósito.
Eu aprendia os coronéis nas ruas de Ilhéus, os j agunços nas roças de cacau, cursava m eus preparatórios antes de vir para as universidades dos becos e ladeiras da Bahia.
Dobris, 1950.
Mandelinka.
Participei de m uita coisa ridícula em m inha vida, poucas com paráveis à caça que, em com panhia de em inentes escritores tchecos e eslovacos e de alguns estrangeiros em férias, em preendi contra a praga das m andelinkas nos arredores do castelo de Dobris. As m andelinkas, arm a na guerra fria que se avolum ava entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Constava que os im perialistas norte-am ericanos, m onstros sem alm a, dirigidos pelo FBI e pela CIA, haviam enviado aviões carregados com toneladas de m andelinkas para despej á-las sobre as plantações, os cam pos de batatas, trigo, cereais. Espécie de besouro ou de lagarta, j á não m e lem bro, a m andelinka reduzia a nada os esforços dos cam poneses nas cooperativas em luta pelas safras: assim a fom e devastaria os estados socialistas e conduziria à contestação.
Haveria resquício de verdade ou o alarm e não passava de sim ples conto da carochinha? Nem por isso deixava a população, arregim entada pelos organism os partidários e sociais, de sair à caça das m andelinkas, em cam panha nacional. As autoridades alertavam os patriotas: j ornais, estações de rádio, cartazes diziam do perigo e reproduziam o inim igo, desenhos em todas as partes. Agora m e recordo, tratava-se de um besourinho, a im agem cobria as caixas de fósforo, eu era fum ante inveterado: um a espécie de j oaninha.
Não escapam os da caça às m andelinkas os escritores residentes ou em férias no castelo, Em i Siao, Jean Laffite, Gabriel D'Arboussier acom panham os os nacionais ao cam po de batatas e o percorrem os folha a folha à procura das m alditas pulgas ianques atiradas dos aviões. Incapaz, nunca achei nenhum a, outros afirm avam aos gritos vitórias sobre o im perialism o, m as cadáver de m andelinka nunca m e foi dado ver.
Em com pensação fui o cam peão de rapidez, ganhei de todos. Jan Drda, dirigente, responsável, gozador que não podia dar-se o luxo da dúvida ainda m enos da gozação, ao ver-m e passar im petuoso e célere, piscava-m e o olho na cum plicidade da tolice assum ida em nom e da ideologia. Piscava-m e o olho, logo gritava alerta exibindo entre os dedos gordos invisíveis m andelinkas. Cada coisa!
Lisboa, 1984.