Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 49 de 262

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Frankfurt, 1976.

Mau-caráter, péssim o cidadão, infam e delator, sem dúvida m as daí à novela de televisão do roubo de originais e de sua apropriação, há um abism o. Nem por ignóbil indivíduo, Cholokov deixou de ser para m im o rom ancista que deu um nó em m inhas tripas.

 

Frankfurt, 1976.

 

O agente gratuito

Estávam os num coquetel oferecido por im portante editor alem ão, no quadro da Feira do Livro de Frankfurt, conversávam os, Alfredo Machado, Klaus Piper* e eu, quando vi o escritor Osm an Lins que se aproxim ava.

*Klaus Piper, editor alemão.

— Conhece Osm an Lins? — perguntei a Alfredo.

— Pessoalm ente não.

Fiz as apresentações. Surpreendeu-m e a reação de Osm an Lins ao ouvir o nom e de Alfredo Machado: o rosto do contista pernam bucano ilum inou-se num sorriso caloroso.

— Alfredo Machado? — estendeu a m ão: — Eu estava à sua procura querendo lhe ser apresentado. Para lhe agradecer...

Voltando-se para m im , explicou:

— Você sabe, Jorge, que devo a Alfredo Machado estar traduzido em alem ão? Foi ele quem , sem ser m eu editor nem m eu am igo, sem nunca ter m e visto, enviou m eus livros para a consideração da editora alem ã que passou a m e publicar. Foi m eu agente literário com a diferença que não m e cobrou com issão...

Assim era Alfredo Machado: quantos escritores brasileiros devem à sua iniciativa, gratuita e generosa, tradução e publicação em outras línguas? Sei de uns quantos, alguns dos quais nem sequer eram seus editados, tam pouco seus am igos: para Alfredão im portava apenas a qualidade do livro, o talento do autor.

Sou de um tempo em que ao ouvir bater na porta se dizia: Se é de paz pode entrar. Quem bate à porta é de paz e de amizade, o ator Zé Trindade, artista de cinema e de televisão, celebridade desde os tempos das chanchadas, agora percorre o interior do país, faz a alegria das plateias das cidadezinhas.

Com as empregadas da casa aprendo a humildade, a não me vangloriar, a importância é sempre relativa, dou-me conta. Ouço a cozinheira Agripina dizer a Eunice* que vem lhe informar quem chamou à porta e ela fez entrar:

Eunice Ferreira, arrumadeira na casa de J. A.

— Zé Trindade? Não me diga! Seu Jorge é mesmo importante, é amigo de Zé Trindade.

Tem razão. Zé Trindade na tevê, na tela do cinema, no rádio, em pessoa, é ídolo popular queiram ou não os elitistas da cultura, uns bestalhões, sua amizade me dá status, importância. Agripina, Eunice, Detinha vêm espiá-lo do corredor, a meu convite entram na sala, se aproximam deslumbradas, estendem as mãos a Zé Trindade, ele as abraça, repete um bordão de rádio, careta cômica de televisão, o riso se espraia.