Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 88 de 262

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São Paulo, 1984.

*Alberto Cavalcanti (1897/1982), cineasta.

Acontece que Brecht passou a ser olhado com desconfiança pelo pecê alem ão, partido de um sectarism o além do im aginável. Sem que fosse levada em conta sua vida inteira dedicada à causa do socialism o, a obra extraordinária do dram aturgo foi acusada de form alista, não se enquadrava nas norm as do realism o-socialista ditadas por Zdanov. Para com eço de conversa, o Partido decidira, segreda-m e Anna, retirar-lhe o uso do teatro que os soviéticos lhe haviam deixado quando se retiraram de Berlim , no qual Brecht e sua com panhia Berliner Ensem ble se instalaram e realizam trabalho de repercussão m undial.

Anna parte para a luta em defesa do am igo, arm a-se o com plô. Está aflita: vão fazer a vida de Bertholt impossível, tu sabes como são essas coisas, não preciso te dizer. Mas há uma maneira, uma única, deparar com tudo isso e lhe garantir segurança, tranquilidade, a paz necessária a seu trabalho. E que maneira é essa? Obter para ele o Prêmio Stalin: se o tiver ninguém ousará tocar nele em seu teatro. Quero que me ajudes, o júri vai se reunir daqui a quatro dias.

Foi um a correria. Prim eiro a conversa com Erem burg, no apartam ento da rua Gorki, Anna conta nos dedos os votos certos para Brecht: o de Ily a, o de Neruda, o dela, quem sabe o de Aragon, o velho a interrom pe, brusco:

— Não perca tem po com isso. O que im porta é o apoio de Sacha — Sacha é Alexandre Fadeev que, no j úri, representa o PCUS, a cuj o Com itê Central pertence, m em bro efetivo — se ele achar que está bem ninguém vai discutir. Só há um a coisa a fazer: falar com ele.

Tom a do telefone para m arcar o encontro, m arca, recom enda a Anna: vá com Jorge, Sacha gosta dele. Era verdade, Fadeev m e estim ava, considerava-m e um cam arada direito, em quem se podia confiar. Lá fom os nós, Anna e eu, conversar com o secretário-geral da União dos Escritores Soviéticos.

Foi m ais fácil do que pensávam os. Exposto o problem a, o autor de A Jovem Guarda não vacilou um m om ento, em prestou total apoio à sugestão de Anna, deu-lhe sua aprovação. Colocaria o nom e de Bertholt Brecht na relação dos prem iados, dos possíveis prem iados, retificou, pois quem dava a últim a palavra, segundo ele, era o Bureau Político do Partido. Seria verdade? Não sei, não era fácil saber onde a verdade, onde o j ogo de interesses. Fosse com o fosse, Bertholt Brecht teve o prêm io, o pecê alem ão arrepiou carreira, desistiu de incom odá-lo. Incom odar, verbo fraco, nem de longe dá ideia das m isérias a que o suj eitariam , o poço de infâm ias em que o afundariam .

São Paulo, 1984.

 

Capim barba-de-bode

Na plateia do teatro, sentada entre m estre Calá e o prefeito de São Paulo, Mário Covas, Auta Rosa exclam a: não, não acredito... Não acreditava no que seus olhos viam , seus ouvidos escutavam : no palco Dorival Cay m m i e Cary bé cantam a cantiga do capim barba-de-bode: uai uai meu capim barba-de-bode...

Com pleto cinquenta anos de livro publicado, em m eio ao festival com em orativo posto de pé por João Agripino Dória — força da natureza, am igo devotado e perigoso: você se descuida ele organiza um program a de hom enagens —, com panhia paulista de teatro rem onta adaptação argentina de Dona Flor e seus dois Maridos, eu a vira dois anos antes em La Plata, a história de dona Flor em ritm o de tango.

Ao fim do espetáculo os artistas m e cham am ao palco, ao agradecer anuncio a presença na sala do com positor Dorival Cay m m i, aquele que ensinou a Vadinho o passo do siri-boceta, assim está contado no rom ance. Sob aplausos, Cay m m i sobe à cena, a plateia reclam a-lhe dem onstração da dança baiana, ninguém a conhece. Dorival prom ete se exibir se Cary bé, tam bém presente, vier cantar com ele a m elodia ideal para o baile do siri-boceta, a m úsica do capim barba-de-bode, Cary bé não vacila, serelepe j unta-se aos artistas, na boca da cena ele e Cay m m i cantam e bailam : uai uai / meu capim barba-de-bode / faz tempo que nós não vai / faz tempo que nós não fode!

A plateia delira, Dona Flor, Vadinho, o farm acêutico Madureira dançam o passo do siri-boceta, o elenco inteiro faz coro com Dorival e Cary bé, Auta Rosa não acredita, o Prefeito aplaude: uai uai meu capim barba-de-bode.