Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 161 de 262

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Bahia, 1974.

Manhãzinha chego à casa de Henrique Scliar, espera-m e em vigília, pensou que eu tivesse sido preso. Preso? Ainda não. Estou chegando do Palácio, de conspirar com o General Interventor, guarde sigilo. Meto a m ão no bolso em busca de lenço para enxugar o suor do rosto, em vez de lenço elevo na m ão o trapo negro, a calcinha de Maria Condessa dos Seios de Lim ão, na sala O odor de alm íscar selvagem , o velho Scliar aspira: que perfume! Concordo, m orto de saudade, desej o boa-noite, levo a relíquia com igo, vou dorm ir.

Bahia, 1974.

Nudismo

Em 1974 deu-se a casualidade de se encontrarem ao m esm o tem po na Bahia três equipes de cinem a, um a francesa, duas brasileiras, film ando adaptações de livros m eus, boa parte das film agens aconteceu na área do Pelourinho, cenário de vários rom ances de m inha autoria. Ali Nelson Pereira dos Santos, assistido pelo filho Nei e pela sobrinha Tizuka*, m ontou o escritório da produção de Tenda dos Milagres, enquanto Bruno Barreto o fazia no Largo da Palm a, para Dona Flor e seus Dois Maridos. Marcel Cam us, os bolsos repletos de francos franceses para produzir Os Pastores da Noite alugara o antigo terreiro do Caboclo Pedra Preta, casa-de-santo onde fui, em tem pos idos, levantado ogan de Yansã por Joãozinho da Gom eia.

*Tizuka Yamasaki, cineasta.

Os três diretores rodaram cenas no Largo do Pelourinho e em ruas adj acentes, sendo que dois deles, Marcel e Bruno, tinham em seus roteiros locações na Igrej a do Rosário dos Negros, pediram m inha intervenção j unto ao Cardeal para obter as autorizações necessárias. Pedi, o Cardeal, am ável, concordou, daria ordens. Disse e cum priu, dentro e fora do tem plo Bruno rodou as sequências finais da película.

Film agem realizada num a tarde de dom ingo, dez vezes ao m enos a m esm a tom ada foi repetida, pois a m ultidão reunida no largo para assistir entrava em delírio ao ver José Wilker — o Vadinho do rom ance — destacar-se de trás de um a coluna na porta do tem plo, nu em pêlo, dar a m ão a Sônia Braga dona Flor, que saía da igrej a pelo braço de Mauro Mendonça, o farm acêutico Teodoro, descerem os três, de braços dados, felizes a ladeira — a gritaria, as vaias, os aplausos explodiam à visão dos quim bas de Vadinho, com prom etiam o fundo m usical, festivo, o som dos sinos. Bruno quase perde a cabeça, o povo gostou dem ais.

Dias depois, pela m anhã, recebo telefonem a aflito de Marcel. Acom panhado de figuração vasta, cerca de cinquenta pessoas, hom ens de branco, m ulheres em traj es de baiana, fora im pedido pelo pároco de entrar na igrej a: proibição de qualquer film agem no interior do tem plo e nas escadarias. Com um a m ão na frente e outra atrás, em desespero, Marcel apelava para m im : falasse com o Cardeal para renovar a ordem com urgência, cada m inuto custava um a fortuna à produção.

Não foi fácil conseguir dom Avelar Brandão* ao telefone o secretário m e inform ou com sequidão que Sua Em inência estava em retiro espiritual. No sufoco forcei a m ão, dei um esporro o xibungo recuou da m á-educação, consegui que fosse portador de um recado. Dom Avelar saiu do retiro ou da m entira, veio ouvir-m e. Narrei-lhe o dram a de Cam us com cinquenta extras pagos à hora esperando na rua diante da porta trancada da igrej a. É verdade, disse-m e o Cardeal, a permissão foi retirada devido ao sucedido no domingo durante a filmagem de Dona Flor: cenas de nudismo no interior do templo, houve quem falasse em bacanal, católicos revoltados, beatas em desmaio e faniquito.

*Dom Avelar Brandão (1912/ 1986) foi Cardeal Primaz do Brasil de 1971 a 1986.

Expliquei o sucedido, nem bacanal nem nudism o, invenção de solteironas. A única pessoa nua, e assim m esm o nem de todo nua, coloquei um cobre-sexo na vara de Vadinho, estivera sem pre do lado de fora da igrej a, envolto num roupão até o m om ento em que dera o braço a Dona Flor na escadaria: j urei pela alm a de m inha m ãe, consegui convencer dom Avelar, um quarto de hora depois Marcel invadia o adro, ocupava a igrej a para film ar o batism o do filho do negro Massu, tendo de padrinho Ogum , orixá dos m etais, ocasião em que Exu pintou e bordou, segundo conta a história. Ninguém protestou, as beatas puritanas, as vitalinas encruadas silenciaram , não clam aram aos céus, não fizeram escândalo. Ao contrário do nudism o, o sincretism o não causou revolta, não provocou grita, escarcéu, reafirm ou-se a realidade da Bahia: filhas-de-santo entraram em transe na igrej a, seis Oguns com pareceram , cavalgaram seus cavalos, testem unharam o batizado, um cortej o de padrinhos.