Navegação de Cabotagem
Lisboa, 1981.
*Vera Kutekhkova, hispanista russa, membro da Academia de Ciências da URSS.
Já éram os am igos por correspondência quando nos conhecem os pessoalm ente em 1948. Responsável pelas literaturas de línguas espanhola e portuguesa no Instituto Gorki de Literatura Universal, Vera escrevera um ensaio sobre m eu trabalho, publicado num a coleção de plaquetes editada pelo Pravda. Para Zélia e para m im , Vera e seu m arido Lev**, hispanista renom ado, autor de livros sobre Lorca, Neruda e Diego Rivera, são nossa fam ília soviética, não precisam os falar para nos entender.
**Lev Ospovat, hispanista russo.
Vera vem tom ar conosco o café da m anhã, no hotel. Estendo-lhe o exem plar do Pravda, peço-lhe tradução im ediata da m anchete que ocupa todo o alto da página, parece-m e notícia im portante. Vera lera o j ornal antes de sair de casa, ainda assim , em vez de adiantar a inform ação, tom a da gazeta, traduz. Trata-se do anúncio da descoberta de infame complô norte-americano para assassinar Stalin. Os im undos, os m onstruosos agentes da conj ura são os m édicos, os m édicos m ais em inentes da URSS, que têm a responsabilidade de zelar pela saúde dos potentados do Krem lin — todos eles judeus, inform a o Pravda.
De boca aberta, sem saber o que dizer, o que pensar, vej o Vera em m inha frente. Parada, cerra as m ãos, m orde os lábios, o pranto escorre de seus olhos: não precisam os falar para entender.
Lisboa, 1981.
A pensão residencial
Sabendo-nos de partida para Lisboa, um am igo roga-nos um favor: buscar para ele e a esposa côm odos num a residência, a capital portuguesa é bem servida de pensões fam iliares, Nosso am igo obteve um a bolsa de estudos, vai fazer pesquisas para um livro, creio ter sido Luiz Henrique m as não tenho certeza. Quem sabe Edivaldo Boaventura.
Pelas quatro da tarde subíam os a Avenida da Liberdade em direção à Praça Marquês de Pom bal, passam os em frente a um a escadaria, cham am -nos a atenção os corrim ões forrados de veludo verm elho, deve ser a residencial m ais confortável da cidade, Decidim os entrar, cum prir o com prom isso, galgam os as escadas. Som os acolhidos por senhora am ável, de m eia-idade, querem os ver os quartos, saber os preços, estam os interessados. Olhou-nos um tanto surpresa m as nos atendeu com polidez: o quarto à direita no m om ento estava ocupado m as abriu a porta do apartam ento à esquerda, acendeu a luz, m eia luz, deu para ver o luxo do leito, as cortinas de cetim , os tapetes, o banheiro ao fundo, im possível pedir m elhor. Restava-nos obter as inform ações: o preço com pleto, m orada e refeição.
— Incluindo a com ida para o casal quanto custa por m ês?
— Por m ês? — adm irou-se. — Cobram os por hora m as pode ser tam bém por um a tarde ou por um a noite. Não servim os refeições... — sorriso cúm plice para os dois velhinhos sem -vergonha: — Mas podem os fornecer cham panhe, vinho do Porto, uísque.
Entendem os, Zélia m e belisca, com que intenção? Desistim os de outras perguntas, vãs. Não fosse o Tivoli tão confortável, bem poderíam os tom ar o quarto por algum as horas, encom endar cham panhe: tentação fugidia de quem em tem pos de outrora fora frequentador. No outro lado da Avenida conseguim os reserva na Residencial Sancho para o casal baiano — teriam sido ou não Laurita e Luisinho? Ou Solange e Edivaldo?