Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 235 de 262

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Navegação de Cabotagem

Paris, 1971.

Pouco a pouco sua pintura feita de cor cresceu na estia dos Críticos e dos colecionadores, expôs na Bonino, os marchands passaram a se interessar por seu trabalho. Carlos Lacerda deu-lhe m ão forte, encom endou-lhe obras para o Banco do Estado, aj udou-o a internar o irm ão no Instituto de Surdos-Mudos. No Rio viveu em nosso apartam ento longo tem po, antes de erguer a casa em Cabo Frio.

Ainda na Bahia, no atelier do Largo de Sant'Ana pintou o retrato do irm ão, tela dram ática, bela e terrível. Propus-m e de com prador, não quis vendê-la, tam pouco a Carlos Lacerda e a Giovanna Bonino, tam bém se candidataram . Era o quadro de sua vida, queria conservá-lo. Para m im pintou Dona Flor com um a rosa de ouro, Gabriela num guache de am arelos pálidos, Tieta do Agreste com o bode Inácio, presentes de Natal.

Encontrei-o em Portugal, no Estoril, pintando pescadores, a banca de peixes, a lota, Zélia conseguiu data para que expusesse no Casino. Conversa vai, conversa vem , perguntei-lhe pelo retrato do irm ão, ainda o tinha: está na casa de Cabo Frio, dele não abro mão. Zélia e eu voltam os para o Brasil, ele continuou em Portugal. No Natal daquele ano recebi um engradado enviado de Cabo Frio, continha um quadro, o retrato do irm ão cego, m udo e surdo de José de Dom e. No Estoril dissera-m e: dele não abro mão, agora m e escrevia no bilhete: quero que fique com você, presente do últim o Natal de sua vida.

Na casa de Cabo Frio José de Dom e possuía um viveiro de pássaros, m ais de trinta, variedades de cores e trinados. Naquela m anhã vestiu o calção de banho para a ida à praia, quotidiana. Antes de sair dirigiu-se ao quintal, abriu a porta do viveiro, soltou os pássaros, olhou-os voar em direção ao m ar, andou para a porta da rua, apenas atravessou o batente caiu m orto, foi com pássaros para o céu dos sergipanos onde santa Dom itila o esperava, um a flor am arela nos cabelos.

Paris, 1971.

O filho

Tan*, gentil e atento, nos serve os pratos chineses no restaurante Tai-San-Yuen, situado em frente à Sorbonne, ao lado do Museu Cluny, som os fregueses antigos, dos anos do exílio, m orávam os pertinho no Hotel Saint-Michel, à rua Cuj as. Ao desem barcar em Paris, ali vam os com er o prim eiro alm oço da tem porada.

*Tan Ky Hong.

Durante anos, discreto, sorriso tím ido, Tan nos oferece o aperitivo em nom e dos proprietários, guarda-nos a m esa do canto atrás da porta de entrada, a m inha preferência. Conhecem o-nos há bastante tem po, trocam os frases, am abilidades, j am ais conversa longa, Tan vai de m esa em m esa, de freguês a freguês, não lhe sobra tem po para a convivência.

Um dia, após retirar os pratos vazios, antes de servir o lichi de sobrem esa, perfila-se, pigarreia, estabelece um clim a de solenidade, discursa. Revela-se cam bodj ano, nós o pensávam os chinês, a voz grave nos anuncia:

— Quero vos com unicar que vos escolhi para m eus pais.

Dois beij os nas faces de Zélia, bonjour, maman, dois nas m inhas, bonjour, papa, nosso filho inesperado, fom os escolhidos pais, nos com ovem os. Casou-se com Thérèse, assistim os à festa do casório, j antar de pratos cozinhados no vapor, incom paráveis. Deixou o ofício de garçom , m udou-se de Paris, habita e trabalha em Clichy -sous-bois, pelo ano-novo nos envia foto recente da fam ília, nos braços de Thérèse o últim o rebento, j á nos deu quatro netos, nosso filho cam bodj ano.