Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 216 de 262

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Navegação de Cabotagem

Lisboa, 1987.

Quanto a m im , nesta época distante, participei, quase sem pre anonim am ente, da preparação de diversos film es da Atlântida e de outras em presas — aquelas que nasciam e viviam o curto tem po de um proj eto que nem sem pre chegava ao fim . Escrevi, sozinho ou em colaboração com terceiros, diálogos e cenários de chanchadas e de pretensiosas produções; foram de m inha autoria, por exem plo, os diálogos da chanchada Uma valsa para dançar — j á não recordo se este era o título do film e ou apenas do tem a m usical, valsa inesquecível, e os da superprodução de Leitão de Barros sobre Castro Alves, roteiro de Joracy Cam argo. Com Fernando de Barros, fraterno am igo, colaborei nos cenários e nos diálogos de várias chanchadas, recordo o título de um a delas: O Cavalo número 13. Nelas brilhavam o cam eram an Georges Fanto que viera para o Brasil com Orson Welles e m inha com adre Maria della Costa, estrelíssim a. Estrelíssim a ela, Maria Fernanda, Odete Lara, Ruth de Souza, Marisa Prado.

Escrevi e assinei o cenário de Estrela da manhã a pedido de Ruy Santos m as, durante a film agem , o produtor e o diretor Codificaram por com pleto a história singela de pescadores que eu havia im aginado para ser vivida por Dorival Cay m m i e Dulce Bressane. Trabalhei durante algum as sem anas, a convite de Carm em Santos, com Mário Peixoto na elaboração do roteiro para um film e sobre Castro Alves, baseado no livro de m inha autoria. O proj eto não foi adiante, um a pena.

Depois veio a aventura da Vera Cruz, dela quase nada sei, a não ser o m elancólico final quando fui encontrar Alberto Cavalcanti, grande cineasta, em inente brasileiro, arrasado, em São Bernardo do Cam po, vítim a do engodo e da salafrarice. Convenci-o a voltar para a Europa e participei, com Joris Ivens, do bom com plô que o levou aos estádios da Wien-Film e para film ar o Puntila de Bertholt Brecht.

Depois, bem , depois são os tem pos de agora, o Cinem a Novo: Luiz Carlos Barreto, o patriarca, j ovem patriarca, Nelson Pereira dos Santos, Caca Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Rui Guerra, Bruno Barreto, um a geração porreta. Com um a estrela no peito e a paixão do Brasil, Glauber com andou o pelotão, foi crucificado pelos patrulheiros em nom e das ideologias caducas. O tem po do vago coadj uvante passou, estou aposentado.

Outro dia, durante o Festival de Cinem a de Sorrento, os j ornalistas m e perguntaram que recom endação gostaria de fazer aos cineastas brasileiros, respondi:

— Devem pensar m enos nos festivais, nos prêm ios, no elogio m útuo e pensar m ais no público, nos espectadores, na gente brasileira. De repente o dinheiro fácil da Em brafilm e se acaba, quem irá bancar a produção cinem atográfica se o film e não falar ao público, não levar os espectadores ao cinem a?

Lisboa, 1987.

A lápide

Com Antônio Alçada alm oçam os no restaurante do Manuel, no Parque May er, em m esa do canto para conversar em paz. Antônio relata a história de sua tia, de um a delas — de todas tem histórias a contar —, daquela que nos tem pos dos com unistas avançando em m archa forçada para o poder, haviam dado início à requisição de propriedades privadas, m andou pintar os largos e extensos m uros da quinta em Covilhã, despesa bruta: por que a faz, tia, quis saber o sobrinho, em zelo de herdeiro presuntivo.