Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 157 de 262

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Paris, 1992.

*Murilo Miranda, ensaísta.

A apuração final considerou os dez autores m ais votados e de cada um deles o livro com m aior núm ero de sufrágios, se tivesse considerado os dez livros teriam entrado na relação dois rom ances de Machado, Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas Se não m e falha a m em ória os dez m ais foram — não estão em ordem de votação, j á não a relem bro: Dom Casmurro, Iracema, de Alencar, Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Alm e ida , O cortiço, de Aluísio, Os corumbas, de Am ando Fontes Angústia, de Graciliano, Banguê, de Zé Lins, Caminhos cruzados, de Érico, Macunaíma, de Mário de Andrade, Jubiabá, de m inha autoria — vale lem brar que o concurso aconteceu em 1939.

Graciliano deixou para votar na últim a apuração, m ostrou-m e sua escolha, dois fatos cham aram -m e a atenção. O velho — não com pletara ainda cinquenta anos, por que o tratávam os de velho? — votava apenas em nove títulos, deixava um lugar vago, não lhe perguntei a razão, desconfiei que, por m odéstia, falsa m odéstia, não colocava na relação rom ance seu. Perguntei-lhe porém por que não votara em Os corumbas: rom ance de Am ando Fontes, considerado na época o m áxim o, recolhia quase unanim idade dos sufrágios. Graça bebeu um gole de café, puxou a fum aça do cigarro Selm a, estávam os no café Mourisco, esquina da rua do Rosário com a avenida Rio Branco:

— Esse filho-da-puta não votou em m im . — Passou a outro assunto, a seu ver de m aior valia: — Tu pensas que daqui a vinte anos ainda haverá quem nos leia?

O concurso foi acom panhado com interesse pelos escritores, agitou os m eios literários, provocou debates na Livraria José Oly m pio, no consultório de Jorge de Lim a, na redação de Dom Casmurro, m as ninguém contestou o resultado. Não sei tam pouco de rom ancista que tenha cabalado voto, se o concurso dos dez m ais acontecesse hoj e ia ser um deus-nos-acuda com cabo eleitoral e leilão de sufrágios. Um detalhe para que se saiba com o era m alvista, na época, a literatura de Oswald de Andrade: o rebelde paulista só obteve um voto, dado por m im a Serafim Ponte Grande, m eu e único.

Desistir agora, não — disse eu a Paloma quando, machucada, ela pensou em pedir o boné e ir embora. Estamos numa briga, vamos brigar até o fim. Depois farás o que quiseres, o que te parecer melhor, Não agora. Perdi muitas brigas em minha vida, paciência, mas não fugi de nenhuma, fui sempre até o fim.

Paris, 1992.

A poeta e a fundação

Da Bahia Rosane m e envia o livro de poem as de My riam Fraga, Os deuses lares, ilustrações de Calasans Neto. A dupla é im batível, Calá nasceu para ilustrar a poesia de My riam , os poem as e as m onotipias são da m esm a m atéria, visceral.

Leitor cativo de My riam Fraga, tom o do livro e constato que seu canto atingiu a m adureza, a densidade dram ática, a sabedoria da palavra precisa e m ágica. Que poeta, m eu Deus! Que Deus a abençoe, o Deus da Fundação, o com padre Exu. Fuso e roca / roca e roca / tinjo e lavo / lavo com água e / mornos sais / o corpo / as feridas / na fimbria / no remoto — vou parar senão transcrevo o livro todo, verso a verso.

Nós o lem os j untos, Zélia e eu, não sei de prazer m aior que o de ler poesia com a nam orada, em conluio. Invadido de rem orsos, acuso Zélia: a culpa é tua, foste tu a inventar a Fundação onde My riam se encerra dia e noite no trabalho, na luta, na estafa, no planej am ento, na realização, na busca m esquinha e heróica de dinheiro para poder levar avante a cultura, no afã de criar condições para a literatura e a arte na Bahia, para o estudo do rom ance brasileiro, pauta de afazeres pej ada de problem as.

My riam teria escrito e publicado nesses anos pelo m enos três livros de poem as, sem falar no lazer abandonado, a casa de praia em Mar Grande, os fins de sem ana na fazenda, j á não lhe sobra tem po para nada, vive am arrada às cadeias de m il dificuldades, carrega nas costas essa tal de Fundação, a tua Fundação. Zélia não se abala, diz estar certa que My riam o faz com prazer, além de poeta é com batente, as dificuldades não a assustam , ao contrário, a seduzem . Quanto à poesia, que eu não m e incom ode, a poesia brota e resplandece, vive dentro de My riam e nada a im pedirá.

Quando digo que Zélia é a responsável pela existência da fundação cultural estabelecida no Pelourinho, nascida da doação de m eu acervo literário leva m eu nom e, digo a verdade. Não fosse Zélia o acervo estaria a essa hora em universidade norte-am ericana.

Com eçara por m e desfazer de m inha biblioteca, nunca foi grande, m as eu j á não tinha, fosse na Bahia, fosse no Rio, onde botar tantos livros. Passei a doá-los a bibliotecas públicas, m uitos volum es foram para Lençóis Paulista onde funciona a Biblioteca Orígenes Lessa. A partir de certo m om ento, atendendo sugestão feita por Carlos Cunha, venho doando os livros à Biblioteca da Academ ia de Letras da Bahia. Guardo apenas uns poucos tom os de m inha preferência absoluta, m estres que m e m arcaram , am igos a quem quero, uns quantos álbuns, poucas centenas de volum es, bastam e sobram . Tam bém o acervo se acum ulava, onde guardar tanta papelada?

Pesava eu propostas recebidas de universidades am ericanas, da Pensilvânia e de Boston, desej avam receber o acervo em doação, propunham -m e zelar por ele, colocá-lo à disposição dos interessados em pesquisá-lo, criando para tanto verbas e espaços. Eu testem unhara, durante m inha estada na Penn State University *, com o tais universidades trabalham com eficiência e dedicação. Estava quase a decidir-m e, Zélia se opôs com determ inação à m inha ideia de oferecer à organização estrangeira docum entos, correspondência, livros, fotos, diplom as, a m assa dos guardados: esse acervo só sairá do Brasil, da Bahia, se passarem por cima de meu cadáver, tem de ficar aqui, é o seu lugar. No decorrer de quase m eio século de coabitação aprendi que não adianta discutir com Zélia, perco sem pre, até agora não ganhei um a.

*Em 1971.

O escritor José Sarney, na época Presidente da República, em cerim ônia no Palácio do Planalto** instituiu a Fundação. Ao agradecer eu disse esperar que a Casa não se transform asse num m useu, fosse realm ente centro de cultura para o estudo da literatura baiana e do rom ance brasileiro, trabalhasse em conj unto com os outros organism os culturais. Acrescentei que sendo na Casa apenas personagem , não m e envolveria em sua adm inistração nem no planej am ento das tarefas. Por fim , referindo-m e à doação por Jam es Am ado de escultura de Tati Moreno, coloquei a Fundação sob a proteção, os cuidados de Exu, entregue ao seu desvelo.

**Brasília, 1986

Sob a grande placa das três raças que se m isturaram , os índios, os negros e os brancos, arte de Cary bé, erguido diante da Casa, Exu preside o destino da Fundação, ali foi plantado o fundam ento na noite de inauguração. Dos diversos axés e ilês vieram as m ães e as filhas-de-santo para o canto e a dança em seu louvor. Antes o Presidente da República, acom panhado pelo Ministro da Cultura, Celso Furtado, pelo Ministro das Com unicações, Antônio Carlos Magalhães, pelo Governador do Estado, João Durval Carneiro, declarara a Fundação inaugurada. Dom Tim óteo aspergiu a água benta da Igrej a Católica, o babalorixá Luiz da Muriçoca soltou a pom ba branca do culto do candom blé, Casa do sincretism o e da m iscigenação. No palco arm ado no Largo desfilaram à noite os m úsicos e intérpretes que, de um a ou de outra m aneira, estão ligados a m eu trabalho de escritor, foram com andados por Nilde Spencer, m inha am iga, grande dam a do teatro da Bahia. Mais de vinte m il pessoas lotavam o Pelourinho na noite da inauguração*. Ao lado de Waldir Pires, governador eleito, e de José Aparecido de Oliveira, governador de Brasília, assisti de um a j anela ao com eço da festa, não tive condições de ficar até o fim , o coração tem seus lim ites.