Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 33 de 262

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Navegação de Cabotagem

Moscou, 1957. Paris, 1990.

*Mário Bastos, remendão de sapatos.

A notícia invade a cidade e a com ove. O enterro sai no fim da tarde da Igrej a do Rosário dos Negros, no Pelourinho, se estende pelas ruas, cortej o im enso no cam inho do Cem itério das Quintas. Im enso e lento, enterro nagô: dois passos à frente, um atrás, o canto do axexê cobre o choro no adeus à iy alorixá que m andava e desm andava.

O babalaô Nezinho* recebe a notícia pelo rádio em seu Ilê em Muritiba, vem correndo para alcançar o enterro: depositário da confiança de Senhora, sentava à sua direita no terreiro. No rosto o espanto, não entende o que se passou.

*Manoel Cerqueira Amorim (1902/ 1973), babalaô.

— Eu sabia que a m orte fora decretada, m as não era a Mãe quem devia m orrer, não era ela que os encantados haviam condenado. Só tem um a explicação: para salvar o ente querido, ela trocou de cabeça, enganou o santo.

Na véspera à tarde eu levara um m édico, Menandro Novais, a ver Senhora que sofria, ele a encontrou cansada, agoniada, recom endou repouso. Mais que enferm a, desesperada. Sabia que a morte ia golpear, não lhe restou outra solução, trocou as cabeças, conclui Nezinho, dois passos à frente, um atrás.

Não m e peçam para explicar o que significa a troca de cabeças, são coisas da Bahia, quem sabe sabe.

 

Moscou, 1957. Paris, 1990.

 

Poesia

Talvez devido à praga da declam ação, epidêm ica no Brasil dos anos trinta, a poesia para m im ficou restrita à leitura, quando m uito a dois: ler poesia de am or com a nam orada a m eia-voz é prazer insólito. Dá gosto ver em Moscou, no Parque Gorki, j ovens casais a curtir Puskin e Iessenine, as cabeças encostadas, m ãos entrelaçadas nas páginas de um livro. Fugi das declam adoras com o da peste am arela, devo no entanto confessar que por m ais de um a vez m e em ocionei ao ouvir dizer poesia. Não faz m uito, em Paris, na Sorbonne, Zélia e eu, em com panhia de Alice Raillard*, ouvim os Maria de Jesus Barroso* declam ar grandes vates portugueses: Cam ilo Peçanha, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Fernando Pessoa. Isenta de qualquer grandiloquência, a atriz vive cada estrofe, nos envolve em poesia, lím pida nascente de em oção. A língua portuguesa na pronúncia de Maria de Jesus tem o acento da eternidade, a poesia m e invade, m e penetra, corre em m eu sangue, bate em m eus ossos.

*Alice Raillard, tradutora francesa.

*Maria de Jesus Barroso, atriz portuguesa, mulher do Presidente Mário Soares.

Outra vez foi em Moscou, vai m ais distante. Eram os tem pos da abertura de Kruchev, no Teatro de Sátira davam um a peça sobre Maiakowski, a vida do poeta contada através de seus poem as. O texto da peça era com posto som ente com versos de Maiakowski e com as acusações feitas à sua poesia pelos críticos ideólogos — críticos e ideólogos defecavam insultos e catilinárias de duas latrinas situadas no alto do cenário, crítica latrinária, o asco. No palco quatro atores viviam quatro diferentes Maiakowski: o revolucionário, o am ante, o surrealista, qual o quarto? Ou seriam apenas três?

Não falo nem entendo a língua russa, m as a força tão profunda da poesia m exeu com m inhas tripas, com ovi-m e quase às lágrim as. Jam ais esquecerei o m om ento em que Maiakowski suicida penetrou no palco para se dar à m orte: entrou declam ando o poem a com que inculpou Iessenine por se ter suicidado. Arrepiado ouvi.

Dediquei boa parte de minha vida a desancar o imperialismo norte-americano, mal dos males, horror dos horrores, bête noire, vilão do filme, responsável pelas desgraças do mundo, peste, fome e guerra, as tiranias, a ameaça atômica — repeti com afinco e ênfase todas as frases-feitas do discurso de esquerda.

Em meio à demagogia, verdades a granel: o desmascaramento, a denúncia da tentativa de domínio econômico e político, dos golpes militares em nossas pátrias da América Latina, ditaduras e ditadores feitos nas coxas dos embaixadores ianques, os Pinochets, os Videlas, a Redentora de 1964. Não me arrependo da artilharia gasta em artigos e discursos, pronunciamentos para desmascarar a impostura, denunciar a agressão, a face do imperialismo é mesquinha e sangrenta.

Repito contudo a dois por três que os bens materiais mais valiosos que possuo, eu os devo ao imperialismo, pilhéria de gosto duvidoso ao ver dos puritanos. Em verdade eu os devo a meu trabalho — ao meu e ao de Zélia, não distingo nem separo: a casa do Rio Vermelho, na Bahia, a mansarda sobre o Sena, no Marais, em Paris.

Em 1962 a Metro-Goldwyn-Mayer comprou-me os direitos cinematográficos de Gabriela — a tradução editada por Alfred Knopf figurava nas listas de best-sellers das gazetas de Nova York e de Los Angeles, pagou-me preço barato, eu era então muito pouco divulgado naquelas bandas. Para mim um dinheirão, ainda por cima em dólares, senti-me rico. A Metro demorou mais de vinte anos para realizar o filme, por duas vezes busquei recomprar os direitos, na segunda tentativa ofereci o dobro do que recebera, por duas vezes a Metro recusou em cartas idênticas: não pensamos nos desfazer dessa nossa mercadoria — mercadoria, a palavra usada.

Com os dólares imperialistas do cinema de Hollywood pude realizar o sonho de ter uma casa na Bahia. Planejada e construída com amor por Gilberbert Chaves, na época jovem arquiteto, colocado hoje entre os maiores, para torná-la singular, além do talento e da perícia de Gilberbert contribuíram artistas da Bahia e dos arredores: Carybé, Mário Cravo, Lew Smarchevski, Genaro de Carvalho, Jenner Augusto, Hansen Bahia, Calasans Neto, Tati Moreno, Udo Knoff, Chico Brenand, Aldemir Martins, o ceramista José Franco, de Portugal. Portas, grades, placas de cerâmica, azulejos, esculturas, sem falar nos óleos, desenhos, gravuras, peças de artesanato — precisaria vender à empresa ianque os direitos de cinema de outro livro se devesse pagar as doações, as dádivas.

Lew Smarchevski, pintor, arquiteto, mestre de saveiro, navegador, industrial, baiano de Odessa, desenhou e realizou os móveis; o artesão Manu, do candomblé do Gantois, forjou as armas de Oxóssi que dominam a construção e o Exu que guarda e protege a casa. A mando de mãe Senhora, mestre Didi* implantou o fundamento, cavucou a terra e nela ocultou o axé aos pés do Compadre, o Exu da potente estrovenga. Zélia e eu plantamos as árvores do jardim, uma a uma, à exceção dos sapotizeiros centenários e da muda de manga-carlota: junto às suas raízes, onde estão os bancos de azulejos, quero ser enterrado quando chegar o dia — aproveito a chance e aqui deixo esse rogo para que os meus o cumpram.