Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1960.
Telefonema
Quase m eia-noite, na sala Antônio Maria* dedilha o violão dá-nos a conhecer com posição recente, frevo apenas concluído, o telefone soa, atendo com im paciência, voz de m ulher pergunta se sou o próprio.
*Antônio Maria, compositor e jornalista.
— Sou sua leitora, daquelas, com pro e leio todos os seus livros. Acabo de suspender a leitura de Os Velhos Marinheiros para lhe telefonar.
Sob o título de Os Velhos Marinheiros, o editor reunira num volum e as histórias de Quincas Berro d'Água e do Capitão Vasco Moscoso de Aragão, a edição vinha de ser posta à venda. A leitora prossegue, exaltada:
— Parei de ler na página onde o Capitão está bêbado e desm oralizado na pensão m iserável de Belém , não tive coragem de prosseguir. Estou telefonando para lhe dizer que se você não o reabilitou, não lhe restituiu a dignidade e a alegria, j am ais voltarei a ler um livro seu.
Retorno ao frevo, à conversa na sala, dou notícia do telefonem a. Antônio Maria escuta, ri seu riso de boca escancarada, confessa:
— Eu tam bém parei na m esm a página, levei dois dias para retom ar a leitura, tive m edo que o Capitão fosse se m atar.