Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1932.
Ferreira de Castro nos ensina o norte de Portugal no verão sem m ácula, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, conhece cada recanto, paisagens e histórias, de Oliveira dos Azem eis onde nasceu à fronteira espanhola. Mesm o com o calor de j ulho veste-se para o rigor do inverno, não abandona o terno pesado, o colete e o chapéu, não sei de ninguém com tam anha fobia a resfriados, nenhum francês o ganha no repúdio às correntes de ar. No carro pede a Zélia que lhe cante o Luar do Sertão, cantiga em que é vidrado.
Perto de Guim arães, na localidade de Taipa, ergueram -lhe um busto, os portugueses se orgulham do rom ancista traduzido em todas as línguas, carregado de prêm ios — vem de receber a Águia de Ouro de Nice, atribuído por um j úri internacional presidido por Miguel Angel Asturias. O busto no parque da aldeia, à som bra das árvores, próxim o a um banco onde conversam labregos na folga do dom ingo. Louvo o gesto da m unicipalidade e da gente do lugar, a hom enagem , o autor de A Selva não com parte de m eu entusiasm o:
— Um a pena, botaram -m e a perder o veraneio. Todos os anos, no verão, vinha aqui para uns dias de descanso. Antes do sol se pôr, à tarde, sentava-m e naquele banco — aponta o banco j unto ao busto —, conversava sobre a chuva e o bom tem po, a vida e a m orte com os patrícios, sabem coisas, contavam -m e das pessoas e dos costum es, os detalhes com que se fazem os rom ances. Sabes com o é.
O vento na praça, Ferreira de Castro aj eita o cachecol:
— Conheciam -m e com o o homem do chapéu porque ando de cabeça coberta para não apanhar defluxo, não sabiam quem eu fosse, conversavam à tripa solta, eu era um deles. Agora, acabou-se, não serei eu quem irá sentar-se diante do busto, papel ridículo. Deixei de vir ao veraneio, a conversa se perdeu, j á nada m e contam , passei a ser Vossa Excelência, dão-m e boa-tarde e se despedem , um a tristeza. Vam os em bora antes que pensem que vim aqui para vos exibir o busto, pavonear-m e.
Rio de Janeiro, 1932.
O aprendiz de romancista
Aprendiz de rom ancista, em briagado com o sucesso de crítica de O País do Carnaval, escrito em 1930, publicado em 1931, escrevo a correr Ruy Barbosa número 2, na m esm a linha rom anesca de influência europeia, debate intelectual de ideias (sic), bobageira. Gastão Cruls, escritor de presença m arcante na vida literária, dirige um a nova editora, a Ariel, e um a revista m ensal, im portantíssim a, o Boletim de Ariel. Colaborador da revista, deixo os originais do novo rom ance com o autor de A Amazônia que eu vi que, um a sem ana após, concorda em publicá-lo, sem entusiasm o ao que m e parece.
Excetuando-se artigo áspero de Antônio de Alcântara Machado — senti-m e infeliz por ser adm irador irrestrito do contista de Brás, Bexiga e Barra Funda, m as nem por isso lhe retirei m inha adm iração, perm aneço irrestrito —, a crítica foi de rara benevolência para com m eu prim eiro rom ance. Os três grandes críticos da época, m estre João Ribeiro, Medeiros e Albuquerque e Agripino Grieco foram unânim es no louvor do estreante. João Ribeiro augurou-lhe êxitos, prognosticou-lhe carreira brilhante na ficção nacional. Medeiros e Albuquerque que havia considerado Lenita uma pura abominação, saudou O País do Carnaval com entusiasm o. Agripino Grieco, panfletário m ordaz, contundente, arrasador, livro que passasse pelo crivo de sua análise estava consagrado, talvez por ser am igo de Pinheiro Viegas, patrono da Academ ia dos Rebeldes, Grieco excedeu-se nos elogios. Eu m e pavoneava nas livrarias, na Católica, na Schm idt, na Garnier, de crista alta. Nunca m ais consegui a m esm a com placência dos críticos, a partir do segundo rom ance passei a receber pau de criar bicho.