Navegação de Cabotagem
Bahia, 1967.
Com eçou seu m etier de tradutor do m ongol para o francês, traduzindo m em bros do Gabinete, dirigentes, m inistros, o secretário-geral, o prim eiro-m inistro. Até o m om ento em que respondeu ao nosso bonj our, j am ais havia ele pronunciado um a única palavra em francês, nenhum a, nunca, j am ais. História para não se acreditar, sucedeu na República Popular da Mongólia, em fevereiro de 1952, quando lá estive com Zélia e os com padres Rosa e Nicolás Guillén.
Tornam o-nos am igos do intérprete que aos poucos foi se descontraindo, por ele ficam os sabendo que o senhor do guarda-pó era m édico, responsável pela nossa saúde. Por curiosidade aqui transcrevo o nom e do doutor, letra por letra: Ludvsanderj iin Zolzhargal, quem puder que o pronuncie. O tradutor do inglês continuou traduzindo para Zélia, opinei que ela não devia ter direito às traduções de nosso françuski, Zélia deu de om bros, m ostrou-m e a língua.
Propusem os aos intérpretes e às m oças da Organização de Mulheres postas à disposição de Zélia e de Rosa que retom assem os traj es m ongóis, ficaram felizes. Cresceu a form osura das j ovens, cresceu a estatura do baixinho, nosso francês virou outro hom em : elegante, forte, im pávido. Ao despedirm o-nos perguntei com o lhe poderia ser útil, pediu-m e que assinasse para ele as edições em francês de revistas soviéticas, Temps Actuels, Litterature Soviétique, Cahiers du Communisme, as que houvesse. Assim o fiz ao chegar a Moscou, assinei-as por cinco anos, o prazo m áxim o.
Em dezem bro daquele m esm o ano encontrei-m e em Viena, no Congresso Mundial da Paz, com o Ministro da Cultura, chefe da delegação m ongol, perguntei-lhe pelo intérprete de francês: com o ia, o que fazia, retornaram a dar aulas na escola prim ária?
— Escola prim ária? Está m aluco? — falava em russo, um a austríaca com petente em vários idiom as traduzia. — íam os perder um a preciosidade tal? Hoj e ele é o diretor da Divisão Francesa do Ministério do Exterior, criada após vossa visita.
Romancista de putas e de vagabundos, classifica-me com menosprezo um graúdo da crítica literária. A classificação me agrada, passo a repeti-la para definir minha criação romanesca.
Gosto da palavra puta, simples e límpida, tenho horror aos termos prostituta, marafona; pejorativos e discriminatórios. Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos, colocando o acento na palavra puta, com júbilo. No Palácio do Planalto, em Brasília, na cerimônia da criação por José Sarney, então Presidente da República, da fundação cultural que leva meu nome. No Palácio do Conselho de Estado, em Sofia, na Bulgária, ao receber o Prêmio Dimitrov. No Palácio de Belém, em Lisboa, quando o Presidente Ramalho Eanes me retirou da condição de "escritor maldito" e me entregou a Ordem de Santiago à Espada. Em toda circunstância, a meu lado, as putas e os vagabundos.
Bahia, 1967.
A passeata
Pouco afeita à m entira, incapaz de trapacear, Palom a nos anuncia que naquela tarde participará da passeata dos estudantes, m anifestação de rua contra a ditadura m ilitar, o irm ão João Jorge, universitário, é um dos organizadores. Palom a vai com pletar dezesseis anos, secundarista, aluna do Colégio de Aplicação, será sua prim eira passeata. Ar decidido, disposta a discutir se encontrar resistência fam iliar: certos pais de exaltado discurso esquerdista ficam em pânico na hora dos filhos se exporem , assum em a prudência e a proibição. Aviso dado e não contestado, Palom a parte heróica.