Navegação de Cabotagem
Bahia, 1923.
Internato
Bicho Preguiça, Paulo, devido à voz arrastada, à m ansidão; Macaco pela carantonha, o nariz achatado, a carapinha, a bocarra sem pre a rir, dentes à m ostra, Giovanni; Gato Preto, Maxim iano, retaco, ágil, m ulato de pele escura; eu era Piolho por ser verm elhinho e por ter sido cam peão em 1923 da praga de piolhos, sem pre a prim eira das infalíveis epidem ias anuais; seguiam -se a catapora, o saram po, a papeira, nessa ordem . A papeira m erecia cuidados especiais, constava que, m al m edicada, descia para os ovos provocando orquite.
Na divisão dos m enores no internato dos j esuítas, andávam os pelos onze anos de idade, éram os inseparáveis, prosseguim os fraternos pela vida afora. Filhos de fazendeiros os quatro: Paulo e eu provínham os do eldorado do cacau, Giovanni dos criatórios de gado do sertão, Maxi viera das lonj uras de Goiás, dias e dias a cavalo. O Colégio Antônio Vieira, discrim inatório além de caro, acolhia os filhos de ricos, de senhores, os padres proj etavam influir sobre os futuros governantes.
Giovanni e Maxi eram os dois únicos alunos do Vieira considerados negros num a população de m ais de duzentos internos: o pardo Giovanni, o cafuzo Maxi, os dem ais passávam os por brancos — a cor da pele e não o sangue ditava a classificação. Maxi m anteve-se m ulato até a m orte, em Goiânia; Giovanni com o passar do tem po alvej ou, ocorre m uito na Bahia, a carapinha denunciadora se transform ou em careca luzidia, ao subir na vida abandonou a m esa de bacará pela m esa de bridge no Clube Inglês, adotou o cachim bo, eu o atucanava para vê-lo desatar a gargalhada: não contente de virar branco, queres virar inglês, és um exagerado.
Faz-se necessário j untar um quinto m em bro à curriola: não tinha apelido, não precisava, o pai francófílo j á o registrara Mirabeau. Externo, era nossa ligação com o m undo além das grades do internato. Para m im prisão insuportável, não cum pri o terceiro ano de pena, fugi no dia da inscrição quando m eu tio m e deixou na portaria: os j esuítas celebraram m issa de deo gratia, no ano anterior para escândalo dos padres m onarquistas declarara-m e de público ateu e bolchevique, revelara-m e contestatário e insubm isso. Logo eu em quem no prim eiro ano eles haviam percebido vocação de noviço: a vida é engano e ilusão.
A vida não nos separou, a am izade iniciada nos bancos do Vieira superou as diferenças e as divergências. Seguim os am igos, cada um o seu cam inho cum prindo sina: a carreira, a proj eção, os obstáculos, as vitórias, a suj eição, as im plicações, j am ais nos faltou a solidariedade dos outros quatro, a m ão estendida quando necessário.
O engenheiro Paulo Peltier de Queiroz, diretor da Divisão de Rios, Portos e Canais, voz m ansa, a discrição e a m odéstia, punha e dispunha no Ministério de Viação e Obras Públicas. Por m ais de um a vez assum iu o cargo de Ministro na ausência dos titulares, m esm o sem assum i-lo era ele quem o exercia, m andava e desm andava, resolvia.
Casado em segundas núpcias com Lúcia, criatura adorável, senhora dona letrada, am iga devota, o casal acolhia em torno à m esa da m ais requintada cozinha baiana, na casa da rua Leôncio Corrêa, sum idades das finanças, da política, da intelectualidade, de Juracy Magalhães a Otto Lara Resende, dos Monteiro de Carvalho a Antônio Vilaça, de Antônio Balbino a frei Leonardo Boff. Pai com petente e extrem oso, os filhos só lhe deram alegria, orgulhava-se da nora Márcia, poeta, apresentadora de tevê, quase tão consagrada quanto o sogro.
Maxim iano da Mata Teixeira, de volta a Goiás com o canudo de bacharel em direito, fez carreira, j urista e m agistrado, com eçou j uiz em Goiás Velho, sua cidade natal, foi desem bargador, presidente do Tribunal de Justiça, professor da Universidade. Apenas assum iram o poder, os gorilas o cassaram do Tribunal e da Universidade por esquerdista: além de esquerdista, patriota e hom em decente. Form ava com sua m ulher Am ália — tam bém ela professora universitária, historiadora, botânica — par de nam orados em arrulho e festa. Acam pavam à beira dos rios, intim avam com os índios, Maxi era pescador, Am ália pesquisava espécies raras de orquídeas, a um a delas deram seu nom e de descobridora: Am aliae.
Na prática dos ritos de am izade, reuníam o-nos os cinco ao m enos um a vez por ano. Com a placidez e a segurança de com andante em navegação de longo curso, Paulo dava ordens pelo telefone interurbano: vamos a Goiás visitar Maxi, passar uns dias com ele, se eu não podia ir, iam ele e Lúcia, os dois sozinhos. Deu-se o luxo de vir com ela com em orar aniversário em Paris, onde estávam os eu e Zélia, festej ou conosco e com Norm a e Renato Sim ões, tam bém velhos am igos. A am izade com andava nossos passos.
Quando j untos os cinco no atelier de Mirabeau, recordávam os peripécias da vida no Vieira, Mirabeau ia buscar fotografias: a divisão dos m enores, os congregados m arianos, os prem iados no dia da prem iação. Retornávam os ao riso da infância, acusavam -m e de desertor, pois capara o gato, caíra fora, eles tinham gram ado m issa e confessionário até o fim do curso, haviam esperado as faculdades de m edicina, direito, engenharia para a boêm ia e o esquerdism o. Relem brávam os os acontecidos, repetíam os as m esm as histórias cada vez m ais divertidas.
No colégio Paulo era considerado gênio em m atem ática, eu era nulo, ainda o sou, nas provas escritas de aritm ética, álgebra, geom etria, abancava-m e a seu lado para colar, copiava-lhe na íntegra as respostas aos quesitos. Num a prova de álgebra, Gato Preto sentado do outro lado de Paulo, puxou-lhe o paletó, rogou-lhe que lhe desse o resultado do prim eiro problem a, prestativo o sabichão com eçou a ditar-lhe a solução:
— Vam os supor que... Maxi perdeu a calm a:
— Supor o quê, Preguiça, isso lá é hora de se supor, seu filho-da-puta?...
Term inávam os todos aprovados nas ciências m atem áticas às custas do saber de Paulo Preguiça, nas análises de Os Lusíadas colávam os de Gato Preto, a par do predicado, do suj eito, do pronom e, eu era bom de redação, ruim de gram ática, piorei na redação, continuei péssim o na gram ática, ainda hoj e não lhe decorei as regras.
A cada ocasião em que nos reuníam os os cinco coniventes, os co-réus, vinha à baila o assunto do bilhete que Giovanni recebeu no dia m esm o em que ingressou no Colégio Antônio Vieira, as aulas j á tinham com eçado: sem dúvida um a das m ais curiosas m ensagens de am or j á redigidas em língua portuguesa.
Frequentava as classes dos m enores um colega que devido à idade habitava na divisão dos m aiores, andava pelos quinze anos quando nenhum de nós passara dos doze. O pai explorava garim pos na zona diam antina, aconteceu-lhe a fortuna de repente, decidira m andar o filho para o m elhor colégio da Bahia, o m enino era um bitelo, sabia das coisas da vida, atrasado nos estudos, calado, m acam búzio, um personagem : tinha fam a de ser o m aior fanchono do internato.
Vale recordar que nos anos vinte a condição de hom ossexual só era atribuída aos passivos — aquele dá, dizia-se em língua de acusação —, alcunhados de xibungos com desprezo, vítim as do preconceito, perseguidos, m arginalizados, excrescências. Os ativos, os que com iam , eram olhados com adm iração e invej a, considerados m achões, não estavam suj eitos à crítica e à discrim inação, os fanchonos.
A m ando do professor, padre Garnier, fizem os lugar para o recém -chegado na ponta do banco onde nos sentávam os Paulo Preguiça, Gato Preto e eu, Piolho, Giovanni nos sorriu com sim patia. No banco atrás o veterano da divisão dos m aiores batucou o olho de sedutor no novato, achou-o de apetite, revelava-se de m au gosto pois Giovanni era feio de doer, não por acaso logo o apelidam os de Macaco. Tocou-lhe o om bro, sorriu-lhe, piscou-lhe o olho, perguntou-lhe o nom e. Inocente dos hábitos do taludo, no desej o de relacionar-se com o colega, Giovanni respondeu-lhe ao sorriso e à piscadela, disse cham ar-se Giovanni Guim arães, às suas ordens. O grandão deixou o lápis cair, abaixou-se para apanhá-lo, com o quem não quer nada passou a m ão na bunda do calouro, Giovanni se sentiu o toque não lhe concedeu categoria de carícia, sim ples casualidade.
De novo o fanchono tocou o om bro do novato, passou-lhe um bilhete rabiscado a lápis num pedaço de papel rasgado do caderno de anotações, Giovanni o leu, só então se deu conta da realidade, com preendeu, vinha do sertão, tam bém ele sabia algo da vida, fez um gesto com a m ão com o a dizer: espere e verá, o m issivista tom ou-o por m ensagem positiva, assentim ento, sorriu com todos os dentes, botou as m ãos em cim a da barriga, estirou as pernas, prestou atenção aos últim os m om entos da aula de religião, o padre Garnier fechou o livro dos pecados e das penitências, bateu palm as com a m ão anunciando os m inutos de recreio, aj eitou a batina, deixou a sala.