Navegação de Cabotagem
Moscou, 1954.
Am aro Am arelo, am arelo pelo m acilento da pele, m oço de m ais ou m enos trinta anos, j á aposentado pelo Instituto, com o não sei — ele diz sou do Institute, assim explica o ócio perm anente à som bra dos coqueiros ou na rede pendurada na choupana de palha. Dedica-se em tem po integral, sem solução de continuidade a não fazer nada, ocupação na qual é im batível. Protegido de Paulo Loureiro por ser bom de papo e por conhecer na ponta da língua a vida e os am ores da vizinhança nas duas m argens de Maria Farinha, a do m ar e a do rio, qual a m ais lum inosa?
Diante de nós, nos fundos da casa dos Loureiro, outro Am aro, Am aro da Conceição, constrói um banheiro para proporcionar a quem chega do m ar, coberto de sal, o luxo de um a chuveirada antes de transpor o postigo. Aprecio e celebro a com petência e a rapidez de Am aro da Conceição na preparação do barro, na colocação dos tij olos, no m anej o da colher de pedreiro, a parede cresce a olhos vistos. Tam bém Am aro Am arelo acom panha o m ovim ento do operário, seu xará e seu contrário, os vaivéns, a azáfam a para concluir a tarefa contratada. Am aro Am arelo ergue o corpo, esquece a xoxota da alem oa, os chifres do alem ão, queixa-se:
— Fico tão cansado vendo seu Am aro da Conceição trabalhar que até sinto dor nas costas, não aguento m ais tanto trabalho, vou pra rede descansar um pouco.
Moscou, 1954.
Complô
Anna Seghers m e telefona do Hotel Nacional, fica defronte da Praça Verm elha — Zélia e eu estam os no Metropol, diante do Bolshoi, em com panhia de Neruda e de Guillén, Acabo de chegar, me diz, preciso falar contigo com a maior urgência, imediatamente: a voz nervosa. Anna veio a Moscou com o eu e tantos outros escritores dos cinco continentes convidados a assistir ao II Congresso dos Escritores Soviéticos, evento de extrem a significação no universo da esquerda intelectual.
Anna não veio apenas para o Congresso, deve tam bém participar da reunião do j úri do Prêm io Internacional Stalin, é j urada: quanto a m im sou prem iado, a m aior das honrarias que recebera até então, dá-m e na URSS status de diplom ata, im portância de dirigente. É sobre o Prêm io Stalin que Anna desej a m e falar. Um as quantas pessoas pelo m undo afora acreditam em m im , atribuem -m e poderes que eu não tenho, capacidade de resolver qualquer problem a, não sei por quê. Anna Seghers é um a dessas irresponsáveis.
O problem a que a aflige e ela m e transm ite para que a aconselhe parece-m e de gravidade incontestável, refere-se a Bertholt Brecht. Jantei com Brecht em casa de Anna — ela e o dram aturgo m oram no m esm o edifício de quatro pisos em Berlim Leste, Anna no segundo, ele no quarto, se não m e engano —, sou am igo de Helena Weil, sua m ulher, colegas no j úri do Prêm io Internacional da Paz, do Conselho Mundial. Com Brecht só vim a ter m aior contato quando da film agem por Alberto Cavalcanti* da peça O Senhor Puntila e seu criado Matti, na Wien Film . Penso ter concorrido para que o teatrólogo e o cineasta pudessem se entender: de início se estranharam .