Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 204 de 262

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Paris, 1990.

As medalhinhas

Napoleão Sabóia, am igo leal e perigoso — e com o! —, correspondente de im prensa em Paris, invade a m ansarda do Quai des Celestins, na m ão o livro de Sy lvie Pierre sobre Glauber Rocha, recita a dedicatória da autora: A Napoleão qui partage avec moi le secret d'une étrange décoration..., rosna entre dentes: os filhos da puta... Estando por dentro do segredo, vou torná-lo público para que se saiba e se avalie a prática das pequenezas nos gabinetes presidenciais ao térm ino dos m andatos.

No exercício da Presidência da República, o escritor José Sarney fez duas visitas à França: convidado para os festej os do bicentenário da Revolução Francesa e de passagem para Moscou. Num a e noutra ocasião condecorou com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul personalidades em inentes da vida francesa ligadas ao Brasil e intelectuais* que nas universidades, nas editoras, nos m eios de com unicação se batem pela divulgação da cultura brasileira, am igos de nosso país e de nossa gente, pessoas a quem m uito devem os — pela prim eira vez um Presidente lhes agradeceu de público a dedicação.

*Foram agraciados, entre outros, nas duas primeiras listas: os franceses Maurice Druon, Jean d'Ormesson, Claude Lévi-Strauss, Georges Raillard, Georges Boisvert, Alain Toureine, Guy Sorman, Mario Carelli, Alice Raillard, Nicole Zand, Jacques Chancel, Francis Combe, Anny-Claude Basset, Anita Andres Clemens, a italiana Luciana Stegagno Picchio, o haitiano René Depestre, o grego Georges Moustaki.

Vez por outra Napoleão aparece na hora do j antar para a sopa de dona Zélia, é recebido com alvoroço, seu riso descontrai, passam os em revista Oropa, França e Bahia. Foi assim que, ao fim do governo Sarney, com entou conosco entre o gole de vinho e o bocado de pão com queij o a ausência entre os condecorados de figuras igualm ente m erecedoras, esquecidas ao azar dos alvitres, Zélia e eu concordam os, acrescentam os nom es aos lem brados por Napô. Da conversa nasceu a sugestão, transm itida ao Presidente e por ele aceita, de sanar a inj ustiça prom ovendo um a nova leva de agraciados: deveriam receber a honraria — as medalhinhas, no pitoresco argot do j ornalista — antes da m udança de governo. Assinado o decreto*, enviado ao Itam araty e de lá à Em baixada do Brasil na França, deu lugar às providências para a entrega solene, solene e urgente, de m edalhas e diplom as, Sarney deixaria o Planalto daí a alguns dias. O Em baixador João Herm es** entrou em ação, transm itiu ao Quai d'Orsay a decisão do Governo do Brasil e apressou-se a fazê-lo aos distinguidos, com a solicitude de quem com unica grata notícia. Eu soube do acontecido porque dois dos m erecedores, Rem y Kolpa Kopoul**, divulgador de nossa m úsica na Europa, e Annik Thebia-Melsan, que m orre de saudades do Brasil, m e telefonaram para dizer com o se sentiram felizes com a notícia de que iam receber a Ordem do Cruzeiro do Sul.