Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 165 de 262

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Rio de Janeiro, 1946.

Term inado o show no palco da Urca, as grandes estrelas subiam ao apartam ento, davam o ar de sua graça, gente no tope da fam a, d'aquém e d'além -m ar: Sy lvio Caldas, Pedro Vargas, Beatriz Costa, Grande Otelo, a m exicana Elvira Rios, Jean Sablon, Ary Barroso, Dircinha e Linda Batista. Um a noite Sy lvio chegou apavorado, na pressa do horário do show atropelara um hom em na Avenida da Ligação, fui em busca do Rolas, no Cassino. Beatriz Costa tornou-se am iga e com adre, viera pela m ão de Anhaory, a franj a do cabelo, a verve, a picardia, o riso, o im proviso, a graça portuguesa, o palavrão palavra doce, a Beatrizinha com o lhe dizíam os. Nos cinem as triunfava com a Aldeia da roupa branca, de Chianca, em carne e osso na ribalta, tripudiava.

A grande sensação foi a visita, certa noite, quase m adrugada, de Josephine Baker, atuava no Cassino, chegou com Tereza d'Am ico, acom panhada por Oswald de Andrade e Julieta Barbara, sua m ulher. Não sei com o ela e Tereza se haviam conhecido, pareciam íntim as, am igonas, am igadonas.

Tem pos difíceis, nem dinheiro, nem dem ocracia, apesar disso fazíam os a festa e enfrentávam os o Estado Novo, éram os j ovens, insolentes.

Rio de Janeiro, 1946.

A estrela

Recém -chegado ao Rio para cum prir o m andato de deputado na Constituinte de 1946, recebo na Câm ara bilhete de Carm em Santos, apraza-m e: te espero para jantar às nove horas, projeto um filme sobre Castro Alves, uma super-produção, direção de Mário Peixoto, história tua, estejas às nove sem falta.

Hoj e irás conhecer Carm em Santos — m ostro o recado a Zélia —, am iga querida, pessoa ótim a, deusa do cinem a: alongo-m e a gabar a beleza, o charm e, a elegância, o talento da com ediante de Favela de meus amores, proprietária dos estúdios da Brasil Vita Film s. Em 1933 Carm em com prou um a opção por dois anos para a film agem de Cacau, em 1943 estabeleceu outra opção, tam bém por dois anos, sobre ABC de Castro Alves, em 1938 adquiriu por cinco anos os direitos cinem atográficos de Mar Morto. Não realizou nenhum dos três film es, m as os dinheirinhos dos contratos chegaram sem pre na hora certa: para ser apenas escritor, para sobreviver sem outro ofício, com i da banda podre.

Descem os do táxi, dou o braço a Zélia, toda nos trinques: para elegante, elegante e m eia, dá gosto vê-la, j ovem m adona: penetram os o portão da m ansão confortável e acolhedora na Tij uca. Pensei encontrar Mário Peixoto, m as Carm em está sozinha, faço as apresentações:

— Zélia, m inha m ulher...

— Oh!

Zélia sorri, Carm em cobre os seios com as m ãos, surpresa. Não está com os seios nus, apenas quase: sem sutiã, a blusa transparente realça-lhes a beleza. Veste calças leves, sem outros panos, livre de com binação, anágua, a seda tênue, translúcida, revela as form as do corpo, a form osura da estrela:

— Desculpe-m e, pensei que ele vinha só, não sabia que tinha se casado.

Zélia, perfeita, não se perturba: esteja à vontade, está tão elegante, nos unimos em São Paulo durante a campanha da anistia. Carm em nos deixa na sala com as bebidas, os tira-gostos:

— Vou telefonar para Mário, dizer que venha. Aproveita para m udar a blusa e as calças, retorna elegantérrim a, conj unto negro e sóbrio. O cineasta de Limite não tarda a aparecer.