Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 197 de 262

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Milão, 1949.

O conde

A prestação de contas de Bom pianni — a prim eira editora a m e publicar na Itália — chega em boa hora: se a m aquia não é grande, não deixa de ser apreciável, refere-se às vendas de Terre del Finemondo e ao adiantam ento sobre a tradução de São Jorge dos Ilhéus*, que vai sair no próxim o setem bro.

*A Terra del Frutti d'Oro, Bompianni, Milão.

As liras vão nos servir para a proj etada viagem de férias, Zélia desem barcara em Gênova em m aio de 1948, um a correria de quatro dias em Rom a, não dera para ver a pátria de Ernesto e Angelina. Pensam os voltar, um m ês inteiro, escrevo à Editora pedindo que deixe o crédito à m inha disposição, quando for a Milão o cobrarei.

Passado algum tem po tom am os o trem , segunda classe, no bolso o suficiente para dois dias de hotel e pizzeria, os cobres da Bom pianni, cobrados assim cheguem os a Milão, assegurarão a continuação da viagem . Apenas não contávam os com o ferragosto, aliás nem sabíam os o que era ferragosto — um a sem ana que com eça a 15 de agosto quando indústrias, bancos, grande parte do com ércio cerram as portas, a vida pára.

Liguei para a Editora, o telefone soava, ninguém atendia, o porteiro do pequeno hotel m e inform a sobre o ferragosto, alarm ado resolvo ir até a sede da Bom pianni, lá chego com Zélia, encontram os as portas fechadas. Tanto bato com os punhos, tanto grito diante da entrada principal, que por fim m e aparece o encarregado da segurança. Quero falar, lhe digo, com alguém da firm a, nada a fazer, responde-m e ele, antes do fim do ferragosto que com eçou na véspera.

Explico-lhe a situação em que nos encontram os, tivem os sorte, o guardião é pessoa prestativa, condoeu-se, interessa-se por nossa desdita, tom a do telefone, durante cerca de um a hora busca falar com il signore Conte Valentino Bom pianni a descansarem sua casa de cam po. Custa tem po e paciência, Zélia e eu pendentes do telefone, o bom italiano insiste, não aceita as recusas dos dom ésticos do Conde, o assunto é sério, diz e repete. E o faz com tam anha disposição que obtém Sua Excelência ao telefone, passa-m e a ligação. Com o que term inaram as dificuldades.

Digo ao ilustre quem eu sou, gentil ele m e saúda, conto-lhe o im bróglio em que nos encontram os. O Conde com preende, fique tranquilo, m e acalm a.

— Sabe a quanto m onta o seu crédito?

Sei, digo a som a m odesta dos direitos de novel autor, prim eiro livro recém -publicado em italiano. Conde Bom pianni m arca encontro com igo no hotel, às dez da m anhã do dia seguinte. Zélia e eu, salvos do naufrágio, m elhor dito da m endicância, beij am o-nos diante do guardião, vam os tom ar vinho e com er pizza, alegres nam orados.

Pontualíssim o, elegantíssim o, às dez em ponto, o Conde desce da lim usine luxuosa, um a pasta na m ão, nela os m eus direitos de autor — naquele tem po a m oeda italiana se distinguia pelo tacanho das notas, enorm es. Pagam ento em espécie, os bancos fechados, se j á tive vontade de beij ar as m ãos de um benfeitor foram as do Conde Bom pianni.