Navegação de Cabotagem
Roma, 1985.
Ancião, as barbas brancas desciam -lhe sobre o peito, de passagem pelo Rio, Thom as da Fonseca veio m e visitar, ao escritor com o ele tam bém proibido em Portugal, am igo de seu filho Branquinho*, eu o recebi no alvoroço da adm iração, abertos os braços do bem -querer: j am ais um a visita m e honrara tanto. Enquanto conversávam os política e letras, Zélia saiu correndo em busca de dona Angelina, por feliz acaso tam bém no Rio, em nossa casa, para com unicar que seu ídolo, dela, Angelina, estava na sala tom ando cafezinho.
*Branquinho da Fonseca (1905/ 1974), escritor português.
Dona Angelina não acreditou: Thom as da Fonseca, ali em pessoa? Im possível. Repreendeu a ousadia da filha, que, com tal atrevim ento, lhe faltava ao respeito, levando na chalaça suas ideias e seus m itos. Fez-se necessário que eu a fosse buscar para que viesse à sala e, em lágrim as, beij asse as m ãos ossudas do ancião. Ficaram a conversar.
Dona Angelina declam ou trechos dos livros de Thom as da Fonseca, sabia páginas inteiras de m em ória, agora eram os olhos do escritor que se ilum inavam . A tertúlia prosseguiu em utopia, Zélia e eu ouvintes deslum brados.
Roma, 1985.
Vasco Pratolini
A notícia da m orte de Vasco Pratolini despenca sobre m im na tarde enevoada de Paris, cerca-m e de lem branças, entristece-m e. Estivem os j untos pela últim a vez em 1985, em Rom a, num j antar em casa de Giuseppe De Santis*, serão de saudade, um tanto quanto m elancólico: som ente nós, os três casais, e o m undo de recordações a nos ligar. Os anos de após guerra, a m ilitância, a criação com prom etida com o povo e com o ser hum ano, dois rom ancistas e um cineasta, três antigos com unas que j untos viveram um sonho de fraternidade, festa de esperanças que se transform ou em funeral de ilusões.