Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 162 de 262

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Navegação de Cabotagem

Bahia, 1962,

 

Zuca

Aprendo com Zuca* a não ter pressa. Tirante Aurélio, que exerce as funções de chofer e é pau para toda obra há cerca de trinta anos, rapaz m oderno quando chegou, hoj e com fios de prata na carapinha, Zuca foi o em pregado de m ais longa perm anência na casa do Rio Verm elho. Instável população de secretárias, bibliotecárias, arrum adeiras, cozinheiras, lavadeiras, m oços-de-recado, alguns de prolongado exercício, de vários fom os e perm anecem os am igos. Valdom iro que cuida da piscina e com ela m antém m isteriosa relação cam inha para alcança o recorde de Zuca, m as ainda não chegou lá: por vinte anos Zuca exerceu o posto de j ardineiro.

*José Laurêncio Carvalho.

De j ardinagem pouco ou nada entende, em troca é m atador de form igas de inestim ável capacidade, num com bate sem tréguas acabou com as form igas que infestavam o terreno quando o com pram os, acabou com os form igueiros da casa e os de todo o bairro. Técnico com petente, Antônio Carlos o nom eou funcionário público, ganhou cabo eleitoral de devotada eficiência. Coração de ouro, pai de dez filhos de seu sangue, a eles acrescentou os órfãos que criou em m eio às dificuldades de pobre: se faltou pão algum a vez, j am ais faltou carinho.

Baiano rem atado, descansado, risonho, sim pático, boa-praça: o tem po lhe pertence, Zuca o governa, dispõe dele a seu bel-prazer, não se suj eita a horários. Vou a um pom ar, com pro m udas de pitangueiras, trago para casa, digo a Zuca que as plante, ele as arrum a j unto à ram pa, à espera — à espera de quê? Só ele sabe, interrogo:

— Zuca, quando vai plantar os pés de pitanga?

— Hoj e é segunda-feira... — Zuca faz as contas nos dedos: — ... sexta-feira eu planto, Professor. — Trata-m e por Professor com deferência.