Navegação de Cabotagem
Rio, 1975.
Naquele dia, na Com issão de Educação e Cultura, no Palácio Tiradentes, após ter obtido m eu total apoio à sua dem anda de verbas, conhecendo m inha posição política e querendo m e agradar, Villa puxou um a baforada do charuto e m e inform ou:
— Acabo de ser convidado para reger m inhas obras num a série de concertos em Moscou.
Eu sabia, havia lido a notícia nos j ornais, felicitei-o, dei testem unho da popularidade de suas com posições na URSS, várias vezes as escutara transm itidas pelas rádios soviéticas, disse-lhe com o e quanto o sucesso de sua criação m usical concorria para fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. Villa puxou m ais fum aça do charuto:
— Você sabe quem assina o convite?
Isso eu não sabia, perguntei se teria sido o Diretor da Orquestra Sinfônica de Moscou ou da Orquestra Sinfônica da República federativa da Rússia, quem ?
— Bote sinfônica nisso, vej a se adivinha.
— Chostakovitch*? — aventurei im pando de orgulho patriótico.
Mais fum aça, um sorriso, a revelação:
Quem assinou foi Lenine**, do próprio punho.
Diante do m eu espanto, estávam os em 1947, o grande Villa:
— Está duvidando? Trago o convite para você ver.
*Dmitry Chostakovitch (1906/1975), compositor soviético.
**V. I. Lenine (1870/ 1924).
Rio, 1975.
Academia
No voto em eleição para a Academ ia Brasileira de Letras prevalece sem pre a circunstância, independente da condição literária dos candidatos, inclusive dos laços de afeição. Não m e foi possível votar em Ody lo Costa, filho, sogro de Palom a, m eu am igo de priscas eras — estam os os dois na fotografia histórica que registra o jantar da nova geração, em 1932, Ody lo era o m ais j ovem dos novos, saudados com carinho pelos velhos Álvaro Morey ra e Peregrino Júnior. Quando Ody lo m e telefonou de Lisboa para declarar-se candidato, j á eu estava com prom etido com Joracy Cam argo: concitara o teatrólogo a apresentar-se, não podia abandoná-lo.
Candidato, m eu prim o Genolino Am ado, cronista aprazível, deixou um volum e de m em órias gostoso de se ler, dividi os escrutínios — o que fiz poucas vezes em m ais de trinta anos de acadêm ico. Dois votos para Genolino, em m em ória do coronel João Am ado, seu tio, dois votos para Bernardo Elis, excelente contista, com panheiro de lides partidárias em nosso tem po de bardos com unistas. No apartam ento do Rio de Janeiro, onde estava de passagem , entreguei aos dois a carta que acom panha os votos do ausente, voltei para a Bahia. Bernardo, gentil e ingênuo, deixou com Genolino a carta e a tarefa de nela colocar, em envelopes fechados, os sufrágios para os quatro escrutínios. Ao que parece Bernardão não teve voto m eu, pagou caro a boa educação — candidato à Academ ia não pode confiar, confiou, fodeu-se.
Na eleição em que foi eleito, não pude votar em Bernardo apesar da adm iração pelo escritor e da estim a pelo com panheiro. Acontecia a candidatura de Juscelino Kubitschek, não era escritor, não era m eu am igo, m antínham os relações de m útua sim patia, apenas. A circunstância política levou-m e a votar nele e até fui acusado por Ney Braga, Ministro da Educação do general de plantão, de ser o inventor da candidatura Kubitschek. Não era verdade: o m entor, o grande eleitor de Juscelino foi Josué Montello, seu am igo de todos os instantes.