Navegação de Cabotagem
Vilarinho das Furnas, Serra do Jerez, 1970.
Leio nos j ornais ter sido Oscar o prim eiro a assinar o m anifesto de um novo partido com unista, o antigo m uda de nom e. Onde há miséria, deverá haver um comunista de pé na tentativa de construir um mundo novo, declara o arquiteto. Não conheço ninguém m ais coerente que Oscar, incapaz de vacilar. Certa feita, voltávam os da Europa num paquete italiano, tinha havido o XX Congresso do pecê soviético, vivíam os a era de Kruchev, a denúncia dos erros e crim es de Stalin, no tom badilho conversávam os o m undo e as m udanças, nada abala a convicção de Oscar:
— Grande m esm o, seu Jorge, foi o Zé dos Bigodes.
Por m aior possa ser a discordância, im possível negar a dignidade com que, um dos grandes artistas do m undo de hoj e, o arquiteto Oscar Niem ey er — a arquitetura é minha vida — se m antém irredutível.
Vilarinho das Furnas, Serra do Jerez, 1970.
O caixão de defunto
O engenheiro João Vasconcelos, prim o de Antônio Celestino em cuj a casa no Minho estam os passando uns dias, leva-nos, a Zélia, a Palom a e a m im , Serra do Jerez abaixo, à localidade de Vilarinho das Furnas, pequena aldeia condenada a desaparecer do m apa com a abertura das com portas da barragem construída no vale para alim entar a nova hidrelétrica.
Tom am os por carreiros ínvios, a distância é longa, aliás há um a sem ana não faço outra coisa senão m archar pela Serra do Jerez em com panhia de Celestino e do prim o João — o senhor engenheiro agrônomo, dizem os serranos — que conhece a região palm o a palm o. Dia histórico, o dia derradeiro de Vilarinho das Furnas, am anhã o vilarej o j á não existirá, encoberto pelas águas. Vam os assistir ao êxodo dos habitantes.
Nas fraldas da m ontanha, lá no fundo a aldeia, em pedra e em rosas verm elhas e am arelas, as flores explodem nos portais das casas, as cabras pastam cachos de uvas verdes na rua com prida, plantada de vinhedos. Foram trazidas das m ontanhas, agrupadas, acom panharão os pastores na expatriação. Em frente às m oradas se acum ulam os pertences, reduzidos bens da pobreza, postas em cestos as galinhas cacarej am , os cam pônios vão e vêm recolhendo obj etos: arrancados de seu chão, de seu dia-a-dia. Pessoas de idade m adura, a m aioria, m uitos velhos, m uitas velhas, apoiados em bengalas e caj ados, aglom eram -se na hora da partida. As posses da aldeia e de cada um dos aldeões levadas para os carros-de-boi que transportarão Vilarinho das Furnas para o desterro. Em frente às cabras, sinto-m e profeta, não estou ao sopé da Serra do Jerez, estou no Velho Testam ento.
O engenheiro recolhe a pedra do batente de um a casa, vai levá-la de m em ória, não pode conter as lágrim as, m as as m ulheres e os hom ens parecem de pedras com o as casas, faces duras, cavadas, olhos vidrados, barba por fazer, bigodões, calças de pano grosso, as cam isas e os coletes, cabeças cobertas com chapéus. Não ouvi lam úrias, soluços, rogos de praga, blasfêm ias, lágrim as apenas as do engenheiro João. A sobriedade do povo na desgraça, eles partem , condenados, abandonam a vida que viveram , o chão que habitaram , os vinhedos que plantaram , as roseiras ao pé das portas, desabrochadas, rosas em sangue: am anhã tudo terá term inado, em vez da aldeia será o lago. Disseram que a m orte é necessária ao progresso.