Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 233 de 262

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Bahia, 1970.

Mário foi um de seus m uitos hóspedes ilustres, paupérrim os exilados, igual a Varela, a Marinelo, a Gravina, a Maria Lam as, a Mário Schem berg, a Massera. Mais do que um hotel, o Saint-Michel foi lar de revolucionários, casa da ciência, das artes e das letras, ninho de am ores. O chinês Liu, pau para toda obra, habitava no vão da escada, via as donas subirem de braço com os hóspedes, acom panhava-as com olhos de cobiça, todas elas suas am antes na solidão das bronhas. Durante o dia atendia o telefone na recepção, transm itia as m ensagens, era discreto. Zélia denunciou-lhe os truques: sendo m eu sim patizante, quando o telefonem a era de hom em , Liu m e cham ava aos gritos m as se a voz era de m ulher subia a escada até o prim eiro andar para segredar-m e a cham ada, Zélia tinha ânsias de esganá-lo.

Ao saber de nossa expulsão da França, Madam e Salvage chorou no om bro de Zélia, velou em pranto o sono de João Jorge, colocou suas econom ias à nossa disposição. Anos felizes os do Hotel Saint-Michel, anos de exílio, de pobreza, de luta, éram os j ovens, tirávam os de letra. De letra se deve tirar cadeia e exílio, bancar o herói não paga a pena.

Bahia, 1970.

O dicionário

Personagem de rom ance dificilm ente retrata tal ou qual pessoa, não é ninguém por ser quase sem pre a som a de vários indivíduos, de cada um tom a detalhe físico ou m oral: do vizinho usa o bigode, daquela m orena a pinta no seio, do lorde baiano a arrogância, a bunda de Maria, a m aneira de andar do m alandro Mirandão, o ar de dignidade e superioridade do cafifa rioplatense, a m anem olência de João das Flores, a doçura de Rita das Dores, o rebolado das ancas da quituteira, a coragem , a covardia, a tem eridade, o bom coração, o azedum e de Fulano, de Beltrano, de Sicrano.

Pode acontecer o rom ancista se basear na personalidade de um único cidadão; ao ser posto nas páginas do rom ance, no contexto de tem pos e figuras, no espaço em que a ação se desenrola, transform a-se em outra criatura, j á não é o indivíduo tom ado da vida real pelo autor para agir nas páginas do livro. O banqueiro Celestino de Dona Flor e seus Dois Maridos tem algo em com um com o senhor Antônio Celestino, diretor do Banco Econôm ico, seu ponto de partida. O crítico de arte Antônio Celestino de O Sumiço da Santa tem a ver com o erudito do Pátio das Artes, inclusive o título da coluna sem anal em A Tarde, porém dele m ais se diferencia do que se assem elha. Cito um exem plo, poderia estender-m e, no particular sobra-m e experiência.

As línguas de trapo divertiam -se nas terras do cacau designando os m odelos dos vários coronéis que povoam m eus rom ances do cacau. Espalhavam ser o coronel Horácio da Silveira a cópia fiel, o retrato do coronel Basílio de Oliveira, desbravador de terras, chefe de j agunços, am igo de m eu pai, avô de Itassucê*. Em verdade, Horácio é som a e síntese de coronéis de m inha infância: o citado Basílio, Henrique Alves, Pedro Catalão, Misael Tavares e João Am ado de Faria, m eu pai. Sinhô Badaró, personagem de Terras do Sem Fim, tem o nom e exato de outro conquistador de terras cuj a m aj estade se im punha à im aginação do m enino grapiúna, o personagem herdou-lhe a figura de profeta e a soberbia, o resto tom ou de outros m enos im ponentes. De todos os coronéis do cacau apenas Teodoro das Baraúnas nasceu de um a única pessoa, decalque do m arido de m inha tia Doninha, tio Manuel Alves, aventureiro e em brulhão. No livro virou outra pessoa, nem sequer m eu tio nele se reconheceu.

*Esposa de Raymundo Sá Barreto, fazendeiro.

Curiosa circunstância, de com eço os indigitados recusavam -se a assum ir o personagem que lhes era atribuído, m as a partir das novelas de televisão adaptadas de Gabriela, de Terras do Sem Fim para cada um dos figurantes sobrava m eia dúzia de m odelos, todos queriam ser o coronel Ram iro Bastos, Mundinho Falcão, Tônico, sedutor. Tônico Pessoa* usava cartão de visita onde se lia debaixo de seu nom e verdadeiro o de Tônico Bastos, encarnara o personagem . Do tabelião Pessoa, o tabelião Bastos tinha a fantasia, o gosto das m ulheres, o m edo da esposa, nele pensei ao criar a figura m as não apenas nele, pensei tam bém em outro tabelião, dublê de literato, Ray m undo Sá Barreto, e no j ornalista Otávio Moura, m ulherengo.

*Antônio Pessoa Júnior (1892/ 1985), tabelião.

Durante a exibição da novela Gabriela, sucesso de Walter Avancini, consagração de Sônia Braga, com pareci a um a festa em Ilhéus e lá encontrei as senhoras da sociedade todas elas fantasiadas de putas do Bataclan, um a delas debruçou-se sobre m im , sussurrou-m e ao ouvido: sou Clarinda, rapariga de Augusto Juvenal e teu xodó, te lembras? De Clarinda m e lem brava, nunca a esquecerei, m ulata caboverde, rosto oriental, riso de m alícia, olhos de quebranto, boca de, peço perdão, não digo de quê a boca, seria falta de respeito para com a brancarrona cor de leite, quarentena grã-fina e licenciosa a querer passar por puta inocente, saí de baixo.

Criatura adorável, Paulo Tavares, letrado e pesquisador, frágil criança na cadeira de rodas de entrevado, dependente dos cuidados de Hay dée, não dependia de ninguém para a análise e a pesquisa, capaz e diligente enfrenta a lida, não tem e a estafa. Dedicou parte de sua vida ao estudo de m eus rom ances: escreveu livro sobre m inha vida, realizou um dicionário de m eus personagens**, preparava outro sobre os personagens de Graciliano, Pensava publicá-lo no ano do centenário do m estre alagoano, as torças lhe faltaram , quando Hay dée se deu conta Paulo havia partido, do guerreiro restava nos lábios o sorriso de criança.

**Criaturas de Jorge Am ado, Record.

Um a de m inhas diversões durante o trabalho duro e difícil do rom ance é colocar nom es de am igos nos personagens: a um frade cachopeiro e m andrião batizei com o nom e de Nuno Lim a de Carvalho, todo o contrário: burro-de-carga no trabalho, não respeita dom ingo nem feriado, ex-sem inarista casto perm anece pudico e só reza m issa no altar de santa Clarinda, esposa e m ártir. Natário da Fonseca, j agunço e capitão da Guarda Nacional, herdou o prenom e de um pasteleiro, notabilidade de Viana do Castelo, siô Manuel Natário o dos pães-de-ló. Meu am igo Gravata Galvão batizou o capitão Gravata de Farda, Fardão, Camisola de Dormir. Ao batizá-lo em prestou-lhe as qualidades que fazem do m odelo exem plo a im itar de boa praça, de rapaz direito, de pessoa nascida para a convivência. Mirabeau está em vários livros m eus, Giovanni Guim arães em quase todos eles, é nom e de rua, de escola prim ária, discute com Zitelm an Oliva e m O Sumiço da Santa, em Dona Flor relato-lhe as façanhas de boêm io e j ogador. Cary bé, useiro e vezeiro em m eus rom ances, neles pinta o sete, rouba, falsifica, inventa e alardeia, am plio as m edidas do personagem , nem assim lhe alcanço a travessura.

Um a das partes do dicionário de Paulo Tavares refere-se aos viventes e aos defuntos cuj os nom es aparecem em m eus rom ances. Paulo consigna-lhes os nom es, a profissão real, a data de nascim ento, a da m orte se j á se foram . Para garantir inform ação correta, para registrar detalhes, Paulo se m ata na pesquisa, na colheita de dados, em pregou os direitos autorais na com pra de dicionários e enciclopédias. Esforço, dedicação, seriedade, por vezes não receberam a j usta recom pensa, foram obj eto de obj eção e de repulsa.