Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 5 de 262

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Navegação de Cabotagem

Nova York, 1986.

Os apressados

Depois de um a sem ana de cam a com pneum onia — o que m e consolava era ver Zélia no m esm o leito com febre alta, lavada em suor, isto sim é solidariedade! —, desço pela prim eira vez ao hall do hotel em Nova York onde m e espera um j ornalista de El País, de Madri.

Inverno rigoroso, o Central Park está gelado, o term ôm etro acusa quatorze graus negativos, o Congresso Internacional do Pen Club vem de term inar sem que a ele tenham os com parecido um a vez sequer, o hotel está lotado de congressistas vindos de cerca de quarenta países. Envolto no sobretudo de gola levantada, preocupo-m e em passar desapercebido, no desej o de evitar explicações e lam úrias.

Ao sair do elevador, avisto Mário Soldati que apressado se dirige para a cabine: tam bém ele m e viu, tenho certeza. Finj o que não o vej o, ele finge que não m e vê, passam os um pelo outro, lado a lado, com o se não nos conhecêssem os.

No dia seguinte, sem pressa, descontraídos, sentados nas poltronas do vestíbulo, conversam os à batons rom pus, na rua o frio, o vento, a neve. Som os velhos am igos, leitores um do outro, sua na r r a tiva (Le Festin du Commandeur, L'Ami Jesuite) parece-m e da m elhor ficção contem porânea, adem ais Soldati presidiu o Júri do Prêm io Internacional Nonino que m e foi conferido em 1984. Mais do que um prêm io, um a festa italiana de confraternização e alegria: polenta, cabrito, pasta — o m elhor fetuccini que j á com i —, vinhos e grapa, a grapa Nonino, é claro. Segundo m e inform ou Soldati, com evidente conhecim ento de causa, e eu repeti no pequeno discurso que pronunciei e ninguém ouviu, barulho ensurdecedor, a grapa Nonino não contente de ser a m elhor do m undo é afrodisíaca.

Tenho horror a hospitais, os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte, mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço, não há flor bonita em campo-santo. Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram minha estima e a perderam.

Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério — nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.

Raros enterros — ainda bem! — de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante — a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.

Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.