Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 2 de 262

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Navegação de Cabotagem

Prefácio

O ano era 1991. Creio que a proxim idade dos oitenta anos fez papai - o escritor Jorge Am ado- decidir-se por, finalm ente, colocar no papel algum as lem branças e alguns pensam entos, fruto de um a vida intensam ente vivida. A ideia o tentava há m uito tem po, porém um pacto feito com Ily a Erem burg e Pablo Neruda, de nunca publicarem livro de m em órias, o retinha. Depois da m orte de Ily a, sua filha Irina publicou não um , m as um a série de livros de m em órias, que o pai havia deixado prontos. O de Neruda, tam bém póstum o, Confesso que vivi, saiu em plena ditadura Pinochet. Por que esperar m ais? Já tinha o título para o pequeno conj unto de lem branças que iria oferecer ao público: Navegação de cabotagem.

Estavam em grande tem porada francesa, para grande alegria m inha, que vivia em Paris. O apartam ento do Quai des Celestins era o local ideal para escrever, aconchegante, dona Zélia cozinhando risotos e brodos italianos deliciosos, o tem po friozinho, não precisou m uito para seu Jorge botar m ãos à obra. Aliás, o m esm o clim a propício à escrita contagiou dona Zélia, que tam bém foi para a m áquina — no seu caso um com putador —, escrever Chão de meninos.

Escreverem ao m esm o tem po não era com um , e na verdade criou um problem a, j á que m am ãe sem pre foi a datilografa dos originais de papai. Eu vinha de ficar desem pregada, m e candidatei e ganhei a vaga! Que privilégio.

Nunca vi papai tão entusiasm ado, os textos fluíam com um a facilidade e um a rapidez im pressionantes. Risos, lágrim as, foram grandes as em oções que sentim os j untos ao reler, corrigir, com entar cada episódio, cada luta, cada am or. Um dia cham ei a atenção dele para o fato de que o "pequeno" livro j á tinha m ais de cem notas (era assim que ele se referia aos textos). Perguntei se a ordem de entrada em cena era a m esm a da escrita e ele disse que não. Era preciso organizar o trabalho, j á estava grande dem ais. Foi então que eu e Pedro (Pedro Costa, então m eu m arido) criam os um a espécie de quebra-cabeças: fiz, no com putador, fichas onde se liam o título da nota e os dados principais: data, personagens, local, se político, se alegre ou triste..., identificadas por cores que facilitavam a ordenação.

A grande sala do apartam ento era forrada de tecido levem ente acolchoado, o que nos perm itiu transform ar as paredes em páginas de livro. Nelas papai prendeu com tachinhas as fichas, que trocava de ordem com grande frequência, à m edida que o livro ia sendo escrito. As pessoas paravam para ler, com entavam : Você fala de fulano em três notas seguidas... Ele concordava ou não. Passou a ser o j ogo preferido da fam ília. Nos divertíam os m uito, ele m ais que todos.

A editora dera um prazo para a entrega dos originais, pois estava prevista a publicação dentro das com em orações dos oitenta anos. O pequeno livro j á ia para m ais de 500 páginas e parecia longe do fim . Pedro fazia a diagram ação, que deveria ir para o Brasil em disquetes, para entrar direto em im pressão, m as cada nota que m udava de lugar exigia m udanças na diagram ação. Estava ficando difícil.

Para atender aos prazos, papai resolveu m arcar um a data para acabar o livro. Com o não queria cair em tentação, com prou um cruzeiro de navio pela Grécia e Turquia, convidou Misette para acom panhá-los e partiram . Eu e Pedro ficam os em Paris term inando a parte gráfica.

Logo na chegada a Atenas, onde pegariam o navio, papai enviou um novo texto. Foi assim durante toda a viagem : escrito à m ão, era passado a lim po tam bém à m ão por m am ãe, dona de um a bonita letra, e enviado por fax. Com o vivíam os os prim órdios dessa invenção genial, um dia recebi cham ado da France Telecom perguntando se eu tinha consciência do custo daquelas ligações (os telefonem as - a cobrar - dados do navio eram caríssim os), e naquele dia haviam chegado 11 m etros de fax m andados do m ar Egeu! O problem a não era tanto o dinheiro gasto, m as os apelos da Record para que m andássem os o livro, que nunca ficava pronto. Eles tinham toda a razão. Papai com eçou a se desculpar: Este é o último, eu garanto. Depois vinha m ais um . Este é o final. E ainda. Este é o derradeiro. Quando j á não encontrou m ais sinônim os para a palavra últim o, e j á chegando ao porto de Veneza, final do passeio, escreveu assim : Desta vez é definitivo, este é o ponto final. Juro pela alma de sua mãe. Reagi im ediatam ente: Jure pela alma da sua, que já morreu, deixe a da minha em paz. Fiz bem , pois de Veneza ainda chegou um , este sim , o últim o final derradeiro!

O livro saiu a tem po, com suas m ais de 600 páginas. Maravilhosas páginas de um a vida cheia de am or, experiências e generosidade, que eu recom endo a todos.

Paloma Amado

"Eu digo não quando todos dizem sim em coro

uníssono. Esse meu compromisso."

(J. A. — Tocaia Grande, a face obscura, 1984)

 

"...uma história se conta, não se explica."

(J. A. — O Sumiço da Santa, 1988)

 

"Sou um baiano romântico e sensual."

(J. A. — entrevista a Moacyr Félix, Paratodos, 1958)