Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 117 de 262

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Rio de Janeiro, 1939. São Paulo, 1944.

Alarm ado levanto a voz para protestar: devem os distinguir entre os que enganaram e os que foram enganados. Se não tom arm os cuidados para im pedir a caça às bruxas, em lugar de sustentar a dem ocracia, estarem os possibilitando que das cinzas do stalinism o ressurj a o fascism o, e tenham os de novo o m assacre e o genocídio.

Jean Daniel, o prim eiro dos oradores, retom a m inhas palavras e delas retira a consequência j usta e necessária. Devemos condenar Gorki porque ele secundou Stalin? Devemos esquecer A Mãe, Os Vagabundos, Bas Fond, a obra imortal do humanista?

Rio de Janeiro, 1939. São Paulo, 1944.

Parecença

Nas proxim idades do antigo Teatro Fênix encontro Procópio Ferreira*, por que a cara am arrada e o despropósito se som os am igos do peito?

— Gritei teu nom e para te cum prim entar no outro lado da avenida, fizeste ouvido m ouco, não m e respondeste, pensei que estavas arm ado em besta.

Joracy Cam argo** confirm a a desatenção: cruzara com igo, eu passara a seu lado com o se não o visse. Não fui eu o desatento, explico, e, sim , Jam es Am ado, irm ão caçula.

*Procópio Ferreira (1898/1979), ator.

**Joracy Camargo (1899/1973), dramaturgo.

Dez anos m ais m oço, éram os parecidíssim os, Jam es é Jorge cagado e cuspido, dizia o coronel João Am ado, apesar da diferença de idade havia quem nos tom asse por gêm eos. Joelson, o do m eio, saíra à fam ília de Lalu, hom ens altos e bonitos.

Em 1944, na cidade de São Paulo, durante o coquetel com que se festej ava a publicação de São Jorge dos Ilhéus, na Livraria Brasiliense, aproveitando a aglom eração, Maria Mão Boba correu a m ão m aneira pelos baixios de Jam es, trabuqueou o croquete do j ovem literato pensando trabuquear o do festej ado autor. A expressão trabuquear o croquete não é m inha, é de Dorival Cay m m i, definição poética para audácias m anuais.

A m ão boba da sabidona serviu para desm ascarar a incoerência de Jam es. Não respondera à saudação de Procópio, sim ulara não ter visto Joracy, m as não rej eitou o im pulso da afoita: não sou ele, mas sou o irmão muito mais moço, estou escrevendo um romance, sou bom na queda, vai ganhar com a troca, experimente.

Rio de Janeiro, 1957.

Tradução russa

Desem barco de Moscou, corro ao hospital para visitar José Lins do Rego, os m édicos dão-lhe poucos dias de vida, trago-lhe um presente, O moleque Ricardo em língua russa, edição publicada na URSS em 1940, logo esgotada, ao fim e ao cabo consegui um exem plar.

Sobre essa tradução várias vezes conversam os, ele nunca acreditara que ela existisse, as repetidas afirm ações não passariam de balela, invenção de am igos com unistas no desej o de "cretinizá-lo". Nem m esm o quando lhe contei, ao voltar ao Brasil em 1952, ter visto um exem plar na Biblioteca Lenine, tê-lo tido em m inhas m ãos: viu mesmo? — duvidou.