Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 252 de 262

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Navegação de Cabotagem

Mont Saint-Michel, 1988.

* Jardin d'Hiver, Stock, Paris 1991.

Atravesso a Praça da Bastilha, rue de Ia Roquette, entro na from agerie, sem pre repleta, pois Monsieur Peron é affineur de com petência celebrada o que explica a clientela num erosa e de categoria. Freguês ignorante, escuto conselhos de Monsieur Peron enquanto Madam e Peron vai em busca da caixa de cottage cheese que m e traz ao negócio às sextas-feiras. Trata-se de um queij o m agro, popular na Inglaterra e nos Estados Unidos, aprendi a apreciá-lo em Londres. Na França tem pouco gasto, im portado para gordos suj eitos a regim e, é o m eu caso.

No decorrer dos m eses trocam os inform ações de fam ília, o casal Peron e o casal Am ado. Perguntam quantos netos tem os e ficam os a par do filho Peron que estuda em universidade norte-am ericana, desej am os boa viagem aos pais quando fecham as portas do negócio por uns dias, vão a Nova York à form atura do rapaz. Sabem m eu nom e de fam ília, consideram -m e bom freguês, sim pático, de m im é tudo quanto sabem , nada m elhor do que ser anônim o cidadão.

Ora, acontece que certa tarde penetro na queij aria lotada com o sem pre, coloco-m e na fila à espera de ser atendido, Madam e Peron m e avista, perde a continência, exclam a aos berros:

— Alors, M. Am ado, c'est pas bien, j e suis fachée avec vous. Vous êtes célebre et vous ne dites rien...

— Quoi?

Madam e Peron aponta-m e aos fregueses, todos se voltam para m im , a estudar a avis-rara, Madam e Peron está exaltada:

— Ce Monsieur là est un écrivain fam eux, vous ne le connaissez pas?

Elogio de corpo presente m e apavora, sou alérgico, sinto-m e no banco dos réus, quero afundar terra adentro. Madam e Peron explica à clientela que o Le Figaro daquele dia dedica m eia página a M. Am ado, não m eia coluna o que j á é m uito, m eia página, nada m ais, nada m enos.

Parte para o fundo do negócio, volta com o j ornal na m ão, esfrega m eu retrato na cara dos presentes, está contente de saber das m erdolências do freguês. Dou-m e conta do que se trata, naquela m anhã Le Figaro publicara entrevista m inha na qual falei de literatura e da Bahia, das terras do cacau e de Gabriela, ao lado da entrevista artigo de André Brincourt sobre as traduções francesas de m eus livros, ele os estim a. Com o dedo Madam e Peron aponta a legenda sob a foto, rej ubila:

— Vous êtes le Victor Hugo du Brésil, et vous ne dites rien, c'est pas sérieux. Sou o Victor Hugo do Brasil, Madam e Peron proclam a a notícia aos quatro ventos, só que eu não sabia.

Mont Saint-Michel, 1988.

O motor

No aeroporto espio o pequeno avião da com panhia regional, dem onstro m inha repugnância, Zélia tenta levantar-m e o ânim o, acontece a cada viagem : sem ana sim , sem ana não, estam os em barcando num a dessas m áquinas m ais pesadas que o ar, contrariam a ciência, violentam o ser hum ano.

Claude Couffon é todo entusiasm o ao telefone com a grata notícia: cher Jorge, le Grand Prix du Mont Saint-Michel t'a été decerné, felicitations. Vais receber carta de Dodik Jegou, Presidente de Les Rencontres Poétiques Internationales de Bretagne com todos os dados, contam os contigo, de 1 a 3 de outubro, à bientôt à Saint-Malo. Quem é Dodik, o que são Les Rencontres Poétiques? Claude responde: Dodik é ótima, Les Rencontres tu vais ver. Desliga, tem m il coisas a fazer.

Zélia se exalta: viaj ante sem pouso falta-lhe conhecer o Mont Saint-Michel, ilustra m inha ignorância: a oitava maravilha do mundo, não sabias? Sabe tudo acerca do Mont Saint-Michel, declam a esplendores, inicia o festival de poesia. O festival de poesia m e alarm a, les rencontres poétiques, conheço o film e, senhoras pelancudas, pigarrentas, subliteratos ávidos, perigosos. Essa tal de Dodik deve ser um a dessas viragos de recitativo em punho, de idade indefinida, ai m eu Deus do céu, Zélia m e anim a: apenas uma hora de avião, quantos m inutos estará escondendo no desej o de m e tranquilizar?

Devo logo dizer que Les Rencontres Poétiques não reúne subliteratos, reúne poetas com andados pelo próprio Claude, que as poetisas não são tão velhas assim , algum as ainda aguentam um tranco. Quanto a Dodik Jegou com eça por não ser poeta e, sim , ceram ista de nom e feito e fam a extensa, recria em seus esm altes as legendas da Bretanha, é casada com Gwen, cuj o renom e de escultor eu j á conhecia, fiquei conhecendo a criatura hum ana, ele e Dodik são am orosos com o dizem os portugueses quando querem deveras elogiar alguém . O prêm io resultou num a festa, apesar da viagem pagou a pena.

Quando digo que pagou a pena, faço afirm ação categórica, dotada de conteúdo trágico e real, pois, para chegar a Saint-Malo, correm os perigo de vida, de m orte em desastre de avião. Entram os no aparelho, um turboélice da idade da pedra, j á deveria estar aposentado. Levantam os vôo, encolho-m e na poltrona, envolto em m edo, Zélia inicia seu sacerdócio: busca levantar-m e o m oral. Sentada ao lado da j anela, inclina a cabeça para ver a paisagem lá em baixo, anuncia-m e, ar de triunfo:

— O m otor desse avião é Rolls-Roy ce!

— Que queres dizer com isso?

— Rolls-Roy ce, o m elhor m otor do m undo, todo m undo sabe. Eu não sabia m as a nova m e dá certa segurança, é o que Zélia desej a.

— E com o sabes que é Rolls-Roy ce?

— Com o sei? Está escrito no próprio m otor, espie.

Abre espaço j unto a j anela, por ele espio, fixo a vista, a voz m e sai trêm ula:

— Te anuncio que teu m otor Rolls-Roy ce acaba de parar.

— Hem ?

Enfia a cabeça, constata, além do m ais ouve-se a voz do com andante, anunciando que houve pane no motor da esquerda mas o avião pode viajar com um só motor os passageiros não devem entrar em pânico, mudamos de rumo, vamos descer em dez minutos num aeroporto próximo, surtout pas de panique.

Pas de panique! Os dez m inutos anunciados foram vinte m inutos de pânico, de pânico total, o aparelho adernado, a m orte cavalga o m otor Rolls Roy ce, o único que resta, Zélia segura m inha m ão: vamos morrer de mãos dadas, m e diz, exaltada. No aeroporto onde baixam os sem m aiores tom bos nos esperam carros de bom beiros, am bulâncias.

Ainda assim o Mont Saint-Michel — o Monastério, a legenda, os Rencontres Poétiques — a cerim ônia do prêm io com o Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, o discurso de Claude, o carinho de Dodik e Gwen, a gata Dodik e o passarinho Gwen, o Mont Saint-Michel com pensaram o susto do m otor.