Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1945.
Os cristais da fraternidade na voz de m estre Luandino:
— Paguei com m eu sangue a leitura de teus livros, m eu irm ão.
Rio de Janeiro, 1945.
Heresia
No assom bro, a boca aberta, Zélia a duras penas contém o protesto italiano, o acanham ento a im pede de clam ar contra o absurdo, acabava de ser apresentada aos sogros, conhecim entos de três dias: engoliu o sapo, sapo-boi. Acom panhara-m e ao Rio para que m eus pais a vissem e aprovassem , o coronel João Am ado a recebe com efusão, dona Eulália a estuda com olhos de desconfiança.
Na batalha pela conquista do afeto do Coronel e de Lalu, Zélia, cozinheira graduada em m assas por seu pai Ernesto*, peninsular de boa boca e rígidos princípios culinários, prepara aquela m acarronada, receita de fam ília, o m olho é segredo que passa de pai a filho. Tendo provado, o doutor Joelson Am ado se declara devoto dos m éritos da cunhada, não lhe poupa elogios enche o prato, esfrega as m ãos. Dona Eulália faz ar de desagrado, torce a cara, o que não a im pede de servir-se com fartura e repetir. O prato m aior, porém , o m acarrão transbordando pelas bordas é do chefe da fam ília, o Coronel gosta de com er bem e bastante.
*Ernesto Gattai (1885/1940), mecânico, corredor de automóvel.
Zélia segue-lhe os m ovim entos à espera da garfada e do louvor à qualidade da cozinha da nora paulista, o gosto do pitéu será dado de relevo na apreciação da escolha da com panheira feita pelo filho. O Coronel, tam bém ele, é estrito em seus princípios: recusa o queij o ralado, corta um a banana em rodelas e as coloca sobre o m acarrão. Depois tom a do farinheiro, cobre a m assa feita no capricho com a farinha de m andioca, acom panham ento indispensável a qualquer prato, sej a qual for. Revolve m acarrão, farinha, banana, enfia o garfo, enche a boca, a m istura sabe-lhe bem .
Nem sequer o grunhido de aplauso restabelece o equilíbrio em ocional de Zélia, dim inui o seu assom bro, olha-m e boquiaberta: macarrão com farinha e rodelas de banana, mamma mia, heresia!
Heresia ou inovação? De m im nunca ousei experim entar, desej o m anter a paz na freguesia, m as estou quase certo que a farinha de m andioca deve dar sabor especial, superior, à cozinha italiana: custa experim entar?
Monte Estoril, Portugal, 1992.
Dignidade
Telefono a Oscar Niem ey er, em nom e de Sérgio Machado*, para convidá-lo a ilustrar livro póstum o de Carlos Drum m ond de Andrade, O amor natural, poem as eróticos que a Record está em vias de publicar. Juntar Drum m ond e Niem ey er será o m áxim o, proclam a o j ovem editor na esperança de resposta positiva.
*Sérgio Machado, editor.
A ideia interessa a Oscar, tudo depende do tem po, prom ete estudar o assunto. Conversam os sobre o m undo que vira pelo avesso, o que falta ainda acontecer? Estraçalha-se o que parecia definitivo, desfazem -se certezas im placáveis, riscam -se do m apa nações, estados, federações, dissolvem -se ideologias, enterram -se teorias ditas científicas, apaga-se o farol que ilum inava o m undo. Havíam os de viver, Oscar e eu, para assistir à desagregação da União Soviética, ainda bem que Prestes m orreu antes. Tam bém Giocondo Dias foi poupado de presenciar o fim do sonho que m otivou nossa vida. De certa m aneira, no que se refere à atuação dos com unistas no Brasil, Giocondo foi um precursor da perestroika.