Navegação de Cabotagem
Paris, 1992.
Ricardo
Vai-se Ricardo Ram os, m erda! A cada dia lá se vai alguém de nosso am or, um am igo, um com panheiro de aventura, um parente. De Ricardo posso dizer parente, não sei qual o grau de parentesco, sei apenas que próxim o ao m eu coração cansado. Filho de Heloísa e de Graciliano, eu o conheci m eninote, acom panhei-lhe a vida e a carreira, a carreira de um escritor de qualidade, sutil e requintado em sua escrita, tão diferente do pai — o vento da tarde e o tufão. Não é fácil afirm ar-se escritor sendo filho de Graciliano Ram os, Ricardo o conseguiu na m edida de um a criação original, o peso im enso do velho Graça não lhe reduziu a vocação.
Foi tão de repente, tão terrível, entre a notícia da m oléstia e a da m orte decorreram vinte dias, vinte dias, ai, de agonia: no telefone para São Paulo onde Luísa e Jam es foram acom panhar Heloísa e Marise* na via crucis, ou a pensar neles, o nom e de Heloísa na boca de Zélia o dia todo. Na idade a que chegam os não devíam os enterrar m ais nenhum am igo, os funerais fazem -nos m orrer aos poucos.
*Marise, mulher de Ricardo.
Vej o Ricardo no apartam ento dos pais, no Rio, m ocinho, lendo para m im páginas das Memórias do Cárcere que Graciliano estava redigindo, o velho Graça escutava, fazia-o repetir passagens.
Paloma, que passa para o computador as páginas datilografadas destas notas à proporção que as entrego, reclama no seu (meu) jeito brusco: j á li o nom e de Jorginho três vezes, dos outros netos e netas nem um a única: ai de mim, não é fácil escrever um livro mesmo quando só de apontamentos.
Aqui me desobrigo, coloco os nomes dos netos por ordem de idade, espero não cometer engano: Bruno, Mariana, Maria João, Cecília, João Jorge Filho dito Macau ou Jonga, sem falar no já (e novamente) citado Jorginho Piça d'Aço Neto, ao todo seis entre varões e senhoritas. Cometo erro pois são nove contando as netas de Zélia, as paulistas: Adriana, Camila e Valéria, três senhoritas em flor, delas sou apenas avô torto mas as quero tanto quanto aos demais.
Sou mau avô, reconheço. Talvez por ter sido bom pai, restou-me pouco amor para dar aos netos, mas Zélia lhes dá amor de sobra, por ela e pelo avô ranzinza.
Bahia, 1952.
O consultório
Médico form ado pela Faculdade de Medicina da Bahia, a prim eira e a m ais fam osa do Brasil, a dos lentes oradores e gram áticos, a dos sábios professores da estatura de Piraj á da Silva, teve Mirabeau Sam paio o bom senso de j am ais exercer a profissão. Nom eado m édico do Estado, reduziu-se a assinar, com razoável eficiência, atestados de vacina em postos de saúde. Em com pensação possuiu o m ais confortável consultório da cidade da Bahia, instalado no extrem o do luxo e do conforto pelo pai que adorava o filho e previa para ele brilhante carreira de esculápio.
Vazio de clientes, repleto de m ulheres, ah! o consultório de Mirabeau em edifício novo, na rua Chile: perdição de donzelas, local de sacrifício de m uita honra fam iliar, senhoras excelentes ali fabricavam chifres para os cônj uges em com panhia daqueles sem -vergonha que éram os nós, Mirabeau e o bando de desvairados. A garçoniêre m ais bem posta e m ais bem m antida da cidade, nada faltava, da m úsica à bebida, dos livros de arte aos chocolates. Madam es de perfeita saúde sentiam um arrepio, um com ichão ao ver a m esa para exam e dos enferm os, a colchoneta, a alm ofada de plum as, o lençol de linho, nela se estendiam , abriam as pernas, para que os doutos localizassem o com ichão.