Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 211 de 262

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Moscou, 1988.

Risonho, na m esa do alm oço com enta o episódio, estam os Odorico, Carlos Bastos e eu: essa revista Mapa é o que há de melhor na Universidade, já pensaram se desaparecesse agora o que iriam dizer de mim? Iriam me chamar de reacionário, intolerante, teriam razão. Enquanto eu for reitor a circulação da revista está garantida, só que os meninos não devem desconfiar.

Faz um a pausa, saboreia o acaraj é, sabe da Universidade, dos professores e dos alunos, Magnífico Reitor:

— São m eninos de talento, am anhã serão os m estres. Mas entre eles tem um m oleque, um tal de Glauber, esse é gênio, vai deslum brar o m undo.

Moscou, 1988.

Vaidade

Na porta do hotel, em Moscou, estou entrando no autom óvel, se adianta um brasileiro, m em bro da com itiva de Sarney, prim eiro Presidente da República a ter coragem de ir em visita oficial à URSS, m e inform a, alvoroçado:

—Você aparece no novo rom ance de Um berto Eco, O Pêndulo de Foucault, que acaba de sair na Itália.

Vaidade patriótica a do patrício, que dizer da que m e invade? : a vaidade não é o m eu defeito, sentim ento pouco habitual, no entanto a notícia envolve-m e num calor de vangloria, sorrio para Zélia. Devido, sem dúvida, à estim a em que tenho o escritor italiano, não apenas o rom ancista, tam bém o articulista ferino e divertido que am o ler.

Há tem pos recom endei sem sucesso a um editor brasileiro a publicação em língua portuguesa de Pastiches et Postiches, título da tradução francesa em que li Diário Mínimo, delícia de livro. O editor desej ava, isso sim , o novo rom ance, filé m ignon, com o m e disse, e não volum e de crônicas, carne de segunda para sua am bição de best-seller.

Mesm o os grandes editores se enganam . José Oly m pio não recusou, na década de trinta, traduzir e publicar... E o vento levou? Contando ninguém acredita.

Bahia, 1965.

O casamenteiro

Fom os padrinhos, Zélia e eu, do casam ento de João Gilberto com Astrud, o casal se separou nos Estados Unidos para onde Joãozinho viaj ara a fim de participar de um show, obteve tam anho sucesso que ficou por lá anos a fio.

No dia de seu em barque, indo para o aeroporto passou por nosso apartam ento para o abraço de despedida, vestia roupa leve, própria para o verão carioca, em Nova York a crueza do inverno era m anchete nos j ornais. Ao vê-lo tão desagasalhado retirei do guarda-roupa um sobretudo usado: vista-o ao desem barcar do avião senão vai m orrer de frio, pegar pneum onia. Essa a m inha contribuição para o êxito do cantor nos States, o sobretudo que o salvou da pneum onia dupla.

Contribuí tam bém para seu casam ento com Miúcha*: do prim eiro m atrim ônio fui testem unha, no segundo funcionei de casam enteiro. Um dia recebi na Bahia telefonem a de Joãozinho, ligava de Nova York, aflito com o sem pre, não m udara, continuava o m esm o:

*Miúcha, Heloísa Buarque de Holanda, cantora.

— Jorginho, você é m uito am igo de Sérgio Buarque de Holanda, não é?

— Sou, sim , Joãozinho, por quê?

Figura das m ais fascinantes da com parsaria intelectual, Sérgio concedeu-m e o privilégio de sua intim idade, coloquei-o de personagem em O Capitão de Longo Curso, assim hom enageio aqueles que m ais estim o e prezo, pondo-os nas páginas de m eus rom ances. Juntos, durante um congresso de literatura em Recife, fundam os na Igrej a de São Pedro dos Clérigos a Benemérita e Venerável Ordem do Hipopótamo Azul, dedicada ao trato das donzelas, e criam os a teoria das baquianas, as balzaquianas quando baqueiam, baseada na agitação das literatas locais que cortej avam Eduardo Portella, o sedutor. Na época do telefonem a o m estre historiador se vangloriava de ser o pai de Chico Buarque, com positor que estourara nas paradas de sucesso.

— Jorginho, estou apaixonado pela filha dele, a Miúcha, irm ã do Chico. Miúcha anda por aqui, ela tam bém gosta de m im , querem os nos casar m as tem os m edo que Sérgio se oponha, você sabe com o é, deve ter ouvido horrores a m eu respeito. Queria que você falasse com ele, pedisse a m ão de Miúcha em casam ento, para m im . Diga a ele que não sou tão ruim com o dizem por aí.

Habituado a m e envolver com a vida de Joãozinho, prom eto interferir — depressa, daqui a uma hora telefono de novo para saber o resultado. Desligara agoniado, eu ainda procuro o núm ero de Sérgio no caderno de telefones, Joãozinho volta a ligar: eu 'tava tão vexado que não mandei um beijo para Zelinha.. Vexado, Joãozinho.

Disco o núm ero paulista, Am élia atende, trocam os gentilezas, desej o falar com vosso ilustre consorte, Sérgio vem ao telefone, sabendo que sou eu com eça a im itar sotaque holandês, é de m orrer de rir m as eu m e ponho sério para lhe inform ar:

— Te telefono para pedir a m ão de tua filha Miúcha em casam ento.

— Hem ? Que história é essa? — Abandona o acento batavo, coloca-se em posição de defesa, que peça estou querendo lhe pregar?

— Não é para m im , é para João Gilberto, estão apaixonados, querem se casar, ele pediu que te dissesse que não é tão ruim assim , tão m á pessoa com o consta por aí, não deves acreditar nas m ás línguas...

— Que m e contas? É brincadeira ou falas a sério?

Falo a sério, relato a conversa de Joãozinho, telefonem a em dólares de Nova York, repetida, esquecera o beij o para Zélia. Em polga-m e a paixão dos dois cantores, coisa linda, faço o elogio do candidato a genro e o faço com am or. De Joãozinho sei o direito e o avesso, do m enino de Juazeiro nas barrancas do São Francisco ao m úsico ainda desconhecido, lutando no Rio em dias de aperto, sou seu parceiro, fiz a letra do Lamento de Marta, com posto para o film e de Alberto D'Aversa*. Quando solteiro, Joãozinho aparecia à noite no apartam ento da Rodolfo Dantas, trazia o violão, ficava até a m adrugada, cantando. Acontecia que Zélia e eu, cansados, íam os dorm ir, Joãozinho prosseguia em com panhia de João Jorge, m enino ainda, privilegiado. João Gilberto tocava, cantava, tendo com o ouvintes apenas o m oleque e o pássaro sofre: vivia solto na sala e assobiava as m úsicas que Joãozinho dedilhava ao violão.

*Alberto D'Aversa, diretor de teatro de origem italiana.

Sérgio escuta em silêncio m inha lengalenga, a proclam ação das virtudes de Joãozinho, gênio m usical, am igo terno, pessoa am orável. No dia seguinte tom a o avião para Nova York, vai estudar o assunto in locum , apaixona-se pelo candidato, só podia acontecer.

Para term inar, um post-scriptum : j á levava João Gilberto vários anos residindo nos Estados Unidos quando um dia apareceu-m e em casa um portador trazendo encom enda enviada pelo m úsico: um sobretudo novo em folha, soberbo, eu o usei longo tem po, ainda o tenho. Ou será que o dei a João Jorge, o ouvinte solitário, o privilegiado?