Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 112 de 262

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Navegação de Cabotagem

São Paulo, 1968.

Tarde de autógrafos

Vej o e não acredito! — contaram -m e que José Oly m pio exclam ara incrédulo diante da foto estam pada em O Estado de S. Paulo. Outros tam bém acharam incrível, no entanto sucedeu.

A foto m ostrava a fila de leitores à espera de autógrafo na livraria Teixeira por ocasião do lançam ento da prim eira edição de Tenda dos Milagres. Em grande plano, de pé, ao lado do autor no ato de dedicar um exem plar, um leitor espera. Esse leitor é ninguém m ais ninguém m enos que Júlio de Mesquita Filho, ali postado em toda sua altura e em toda sua m aj estade. Só m esm o vendo para crer: o diretor de O Estado de S. Paulo num a sessão de autógrafos na intenção de solicitar assinatura de um escritor.

Quatro ou cinco dias antes eu lhe enviara o Tenda com dedicatória afetuosa, por que cargas d'água viera ele pessoalm ente à livraria, trazendo a reboque um dos fotógrafos do j ornal? Ao chegar adquirira o livro, fizera questão de pagar, o livreiro tentara oferecer, entrou na fila que se estendia rua afora, ah isso era dem ais, o editor e o livreiro foram buscá-lo, trouxeram -no até a m esa onde eu assinava, cum prim entou-m e, passou-m e o volum e, autografei, Julinho m andou que o fotógrafo repetisse a chapa, abraçou-m e, foi-se em bora.

No dia seguinte, em página nobre, clichê em duas (ou três?) colunas, o Estadão noticiava a realização da tarde de autógrafos, dava conta da presença na livraria de Júlio de Mesquita Filho em busca de autógrafo em exem plar do Tenda dos Milagres, novo sucesso do rom ancista etcetera e tal, elogios a granel, a m aior propaganda para o livro. Maior ainda a prova de consideração, incrível. No Rio, José Oly m pio olhava a foto, não acreditava no que seus olhos viam .

Na véspera, ou sej a, no dia do lançam ento, o Estado publicara artigo de Arnaldo Pedroso d'Horta arrasando o livro e o autor. Arnaldo era m eu desafeto desde a publicação de Os Subterrâneos da Liberdade, razões de ordem política, não perdia vaza para esculham bar-m e. O Estadão concedia — e certam ente ainda concede — total liberdade de opinião a seus colaboradores, o artigo fora estam pado com o devido. Julinho porém quis provar de público sua estim a e a do j ornal pelo livro e pelo autor. Arrebanhou fotógrafo, com ele dirigiu-se para a Livraria Teixeira, a foto registrou o acontecido: eu a lhe entregar o Tenda dos Milagres, ele a recebê-lo.

— Vej o e não acredito! — exclam ou José Oly m pio.

Devia no entanto acreditar, pois conhecia Julinho Mesquita de longa data e longo convívio. A presença do diretor de O Estado de S. Paulo na tarde de autógrafos m e envaideceu, m as não m e surpreendeu.