Navegação de Cabotagem
Berlim, 1972.
— Aquela ali, um a das pensões de raparigas m ais frequentadas, pertence a Odorico Tavares.
— A casa? — indagou um a senhora.
— A casa não sei a quem pertence, falo do negócio.
— A quem ? — estranhou o rom ancista Paço d'Arcos.
— A Odorico Tavares.
— O Jorge Am ado se refere ao nosso am igo, ao poeta, ao j ornalista, ao diretor dos Diários Associados?
— Esse m esm o, nosso querido Odorico.
— Não é possível! — protestou não sei m ais quem .
Cícero Dias m eteu colher de sopa na conversa:
— Não é só esta pensão que ele possui, Odorico é com anditário de m ais três, de m uita freguesia. Em bolsa um bom dinheiro.
Ante o espanto geral, as senhoras escandalizadas, explico:
— Pensavam que realm ente Odorico com pra santos antigos, quadros de pintores célebres, vive no luxo, um nababo, um perdulário, com o m ísero salário que Assis Chateaubriand lhe paga? Sua largueza quem a sustenta são essas infelizes raparigas... — Mandei que a Kom bi prosseguisse para o hotel.
No hall do hotel ainda persistiam o pasm o e a reprovação, as senhoras não escondiam o desapontam ento, doutor Odorico, pessoa tão distinta, quem diria — eis que vej o na rua dirigindo-se para a entrada o discutido poeta Tavares. Abandono o grupo às suas estranhezas, alcanço Odorico, conto-lhe a história, ele se aproxim a da roda de escritores que em udecem ao vê-lo, as senhoras retiram -se sem responder ao boa-tarde. Odorico baixa a voz, avisa:
— Aproveitando que as senhoras foram à sesta quero inform ar aos caros am igos que possuo em bairros da cidade algum as casas de tolerância, pensões de m ulheres-da-vida — aqui dão o nom e de castelos. Já dei ordens às caftinas para fazerem quinze por cento de desconto nos preços de tabela para os estrangeiros participantes das Jornadas.
O silêncio se faz m aior a cada palavra do diretor dos Associados, Odorico não perde o rebolado:
— Respondo pela qualidade das m ulheres: são o escol, a nata, a fina flor, as francesas são as m ais caras, m as, se querem um conselho, recom endo as negras.
Escritor, j ornalista, diretor de dois quotidianos, íntim o do Governador, m em bro da Academ ia, um dos donos da cidade, Odorico Tavares. Com panheiro sem com paração na m esa de pôquer, na ciranda da poesia, no prazer da vida, no am or à arte, se trato das pessoas, gozador com o ele só, o que inventam os daria para volum oso livro de absurdos. A roda se desfaz, persiste no hall do hotel um a atm osfera de constrangim ento.
Carlos Eduardo da Rocha* m e contou que alguns congressistas, sabendo-o íntim o de Odorico, vieram lhe perguntar se era necessário apresentar credencial para obter abatim ento, pediram os endereços.
*Carlos Eduardo da Rocha, poeta e crítico de arte.
Berlim, 1972.
Herói positivo
Jurgen Gruner, diretor da Verlag Volk und Welt, m e escreve narrando o dram a que passou a viver após a reunificação da Alem anha. Aquela que foi a m onum ental editora de literatura estrangeira da finada República Dem ocrática Alem ã, a Alem anha do Leste, está am eaçada de não sobreviver à transform ação de em presa estatal em em presa privada, de não poder superar as dificuldades nascidas da livre concorrência.