Navegação de Cabotagem
Lisboa, 1966.
Não se tratava de feudalismo e sim de pornografia, replicou Guillén, devassidão tam anha j am ais vira em cena nem sequer no bas-fond de Nova York. Pornografia? Não estou entendendo — estranhou o porta-voz do pecê chinês. Não consegui m e conter, o fou-rire se m e escapou e descabido ressoou no auditório da União de Escritores. Nicolás fuzilou-m e com o olhar, buscou o que dizer, a indignação não lhe perm itia encontrar as palavras de cólera para m e insultar e condenar. Fitou-m e, eu ria, Zélia ria, Rosa entendeu e riu seu riso sonoro das Antilhas, de repente aconteceu o im previsível, Nicolás se j untou a nós na gargalhada, poucos sabiam rir com tanto gosto. Compadre, m e disse entre frouxos de riso, nunca mais vou acreditar em ti.
Discretos, os chineses não fizeram perguntas, m as Rosa exigiu de Zélia o entrecho verdadeiro da ópera, queria saber tintim por tintim a história das guerras e dos am ores do Im perador da China e da Favorita, fiel e devotada, casta.
Lisboa, 1966.
Autógrafos
O navio se aproxim a do cais, a prim eira pessoa que vej o, agitando os braços, é Luiz Henrique, está em Portugal pesquisando para um livro. Grita, não ouço nada, logo diviso Ferreira de Castro, Álvaro Salem a, Francisco Ly on de Castro e Ody lo Costa, filho. O navio atraca, sobem a bordo. Luizinho, alvoroçado, dá-nos a boa-nova: podem desembarcar, foi permitido Ao tom ar o barco na Bahia recebera a notícia de que o governo português m ais um a vez m e negara entrada enquanto o espanhol m e concedera o visto até então recusado. Tom am os o navio para Vigo, vou com Zélia e os filhos em viagem à Europa Palom a nasceu em Praga, não festej ara um ano quando veio para o Brasil. João Jorge foi para Paris em 1948, voltou de Gênova em 1952, aos cinco anos incom pletos. Sobre a entrada na França nada sei, devo encontrar notícias de Guilherm e Figueiredo em Madri, quem sabe m e darão o visto de quinze dias que solicitei.
O direito de desem barcar em Lisboa eu o devo aos esforços reunidos de Maria de Lourdes Belchior e Ody lo Costa, filho, adidos culturais, ela de Portugal no Brasil, ele do Brasil em Portugal. Ao saber no Rio que eu obtivera o visto espanhol ao m esm o tem po em que m e eram fechadas as portas lusitanas, Maria de Lourdes tom ou o avião para Lisboa, gritando escândalo. Tam bém Ody lo se m oveu, m oveu céus e terras, o direito de desem barcar foi-m e concedido com um a restrição: proibidas notícias na im prensa, devo passar anônim o. Noticiário nos j ornais não m e interessava, m eu interesse era Portugal, o país e o povo. De Lisboa o navio irá ao Porto antes de chegar a Vigo, Ly on de Castro m ete-nos no autom óvel, arrancam os pelas estradas, irem os em barcar no Porto, viagem inesquecível.
Dois m eses depois estam os de volta, para estada m aior. O editor aproveita, prom ove sessão de autógrafos, desconhece a interdição de m eu nom e na im prensa, coloca anúncio nos j ornais convocando os leitores para encontro com igo na Sociedade Nacional de Belas-Artes, às três da tarde. Foi o fim do m undo, os leitores abandonaram a clandestinidade, às onze da m anhã a fila j á se estendia rua afora, dezenas, centenas de pessoas. Escoltado por Beatriz Costa e Raul Solnado, pelas m eninas Eunice e Zélia assinei durante horas e horas, perdi a conta. Havia quem trouxesse m alas repletas de livros, todos proibidos, com prados por baixo do pano, lidos nos esconsos das prisões, no cam po do Tarrafal. Cada qual tinha um a história para contar, m e lem bro de um cam arada que havia lido Capitães da Areia transcrito em pequenos pedaços de papel, passados de cela em cela. Fui acarinhado, ouvi loas que não eram loas e, sim , ternura, beij aram -m e a face e m e disseram amigo, companheiro. Se em oção m atasse, eu teria m orrido naquela sessão de autógrafos em Lisboa.