Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 137 de 262

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Paris, 1991.

 

Graham Greene

Vai-se da vida um dos escritores contem porâneos de m inha adm iração: Graham Greene habitava em Antibes, eu o conheci no Rio de Janeiro em tem pos de antanho. Conversam os duas ou três vezes, Zélia e eu j antam os com ele em com panhia de Zora e Olinto.

A obra do rom ancista eu a estim o entre as m aiores de nossa época: discutiu todos os problem as, assum iu posições de vanguarda, aum entou a população com personagens que andam por aí m ais vivos do que nós. Por ser escritor agradável de ler-se e por ser dos m ais lidos, por ser popular em todos os sentidos, os ressentidos não lhe am am os livros nem lhe suportam a fam a, relegam -no à vala com um dos fáceis.

Pensei reencontrá-lo em Moscou, em 1989, na reunião do Com itê Diretor da revista Literatura Estrangeira — que fim teria levado a publicação que a partir do prim eiro núm ero significou audácia e abertura na divulgação das literaturas estrangeira na União Soviética? Graham Greene e eu fazíam os parte do Com itê Internacional da revista. Graham Greene não pôde ir, a saúde não lhe perm itiu a viagem , ainda bem , pois iria sofrer dem ais, com o eu sofri, com a visão da URSS se desm antelando, os problem as, os rancores, os nacionalism os, os radicalism os, a incerteza.

Eu o reencontro nos artigos que lhe estudam a obra e a personalidade nos j ornais e revistas da Europa. No Jornal de Letras de Lisboa, Francisco José Viegas inform a sobre idiossincrasias de Greene: nunca perdoou a Burgess determinadas imprecisões sobre seus livros, nem a Lundqvist, da Academia Sueca, o ter dito que o Nobel nunca poderia ser atribuído a Greene. Lundqvist, o fatal: em m atéria de rej eição estou em boa com panhia, além de Alberto Moravia, Graham Greene.

Bahia, 1965.

Reencarnações

Cardoso e Silva, dito Cardosinho. Poeta, três coletâneas de sonetos editadas, centenas de sonetos inéditos, com ida para os ratos na pocilga onde habitava em Pau da Lim a — alimentam-se de poesia, com entava puxando fum aça do cachim bo. Filósofo, duas plaquetes de elucubrações m etafísicas, pintor naïf. Vivia da venda das pequenas telas que conduzia em brulhadas nas páginas d e A Tarde, as igrej as da Bahia, as fam osas e as capelinhas, a Igrej a de São Francisco, a do Bonfim , a capela de São Lázaro, pintou-as todas, possuo um a quantidade. Alfredo Machado quando vinha à Bahia com prava ao m enos m eia dúzia e dobrava o pagam ento: os Preços de Cardosinho eram dez réis de m el coado, nunca se vendeu beleza a tão baixo preço. Maçom , espírita — kardecista, corrigia —, pobre de Cristo sem ter onde cair m orto, vivia em alegria, am or à vida só com parável ao de Norm a Sam paio ou de Calasans Neto. Cardosinho, um a das m ais doces criaturas que conheci e estim ei, eu trazia-lhe das viagens cachim bos raros e boinas bascas. Com sua boina, seu cachim bo, sua gargalhada, Cardoso e Silva. Assinava-se Cardoso & Sa.:, após o a o sinal m açônico.