Navegação de Cabotagem
Bahia, 1929.
**José Júlio de Calasans Neto, gravador e pintor, Auta Rosa, sua mulher.
Escrevo a Luís Forj az Trigueiros***. Luís não teve ânim o de m e telefonar, pediu a Celestino que o fizesse. Estam os órfãos, Luís, do m elhor dos am igos, não voltarem os a ter outro igual. Será que conseguiste elegê-lo m em bro da Academ ia de Ciências com o tanto desej avas, pergunto-lhe, ou não chegaste a convencê-lo?
O hom em m ais m odesto, o m ais tím ido, o m ais coraj oso, o m ais leal, o m ais digno, Álvaro Salem a. Em silêncio se retirou de cena, pouco antes do final da tragicom édia, personificava a decência, j á não tinha lugar no palco.
***Luís Forjaz Trigueiros, escritor português.
Bahia, 1929.
Lenita
Dias da Costa*, Edison Carneiro** e eu, em 1929, escrevem os em colaboração um rom ance sob o título de El-Rey, publicado em folhetim em O Jornal, órgão da Aliança Liberal na Bahia. Um editor do Rio, A. Coelho Branco Filho — j am ais o esquecerei, pois foi o prim eiro a colocar m eu nom e na capa de um livro, o prim eiro a m e ficar devendo direitos autorais —, lançou-o em volum e em 1930, capa m edonhosa, com o título de Lenita. Livrinho com todos os cacoetes da época, Medeiros e Albuquerque o definiu: uma pura abominação. Um único subliterato não poderia tê-lo feito tão ruim , foi necessário que se j untassem três.
*Oswaldo Dias da Costa (1907/ 1974), escritor.
**Edison Carneiro (1912/1972), escritor e etnógrafo.
Rio de Janeiro, 1960.
Apoio eleitoral
Eduardo Portella, um dos m eus cúm plices m ais perm anentes e ativos, o que aprontam os j untos daria para com por volum osa antologia político-literária, telefona-m e para pedir um a palavra de apoio a Jarbas Maranhão, candidato a um a cadeira no Senado, por Pernam buco.
Baiano de nascim ento, Eduardo é m uito ligado à vida pernam bucana, cursou a Faculdade de Direito no Recife, m exe com a política local, aliás m exe e rem exe com a política brasileira em geral, com a literatura nem falar. Além de ser pouco ligado à política de Pernam buco, j á escrevi m anifesto de apoio a Miguel Arraes, candidato a Governador, não apenas m eu am igo, tam bém correligionário de esquerda. Candidato pelo PSD, conservador, Jarbas Maranhão não pode ser m eu candidato, explico a Eduardo, ele não aceita m inhas razões, amigo é para as coisas difíceis, para as fáceis não faz falta a amizade. Term ino por lhe prom eter um a palavra sim pática sobre Jarbas a quem estim o pessoalm ente.
Quebro a cabeça em busca da m aneira de atender ao pedido de Eduardo sem causar dano à cam panha de Arraes. Astucio um a saída velhaca: escrevo um a carta a Jarbas Maranhão com posta de três parágrafos, dois pequenos, o do com eço e o do fim , um grande, o do m eio. No do com eço falo bem de Jarbas, político honrado e sério, no do fim desej o-lhe sucesso na cam panha. No parágrafo do m eio m e alongo no elogio a Miguel Arraes e a seus com panheiros de legenda, após explicar que não posso apoiar a candidatura de Jarbas pois, hom em de esquerda, sustento outros candidatos, exatam ente os da chapa "do im batível Arraes que conduzirá Pernam buco ao progresso e à j ustiça social". Divirto-m e Pensando na cara de Eduardo quando ler a carta que eu considero um a obra-prim a de m alandragem política. Mando a secretária entregá-la em m ão própria a Eduardo para que a rem eta a Jarbas. Ele m e telefona agradecendo sem m aiores com entários, a discrição surpreende-m e.