Navegação de Cabotagem
Karachi, 1957
— Naquela casa Jorge Am ado nasceu no ano de 1500. Não faz falta traduzir, Jacques, poliglota, entende e se diverte:
— És um notável da cidade desde m il e quinhentos... — Goza-m e a glória de séculos.
De séculos porém efêm era, um dos m eninos m e reconhece, avisa aos com panheiros: cala a boca, gente, não vê que é o pai do professor? O Professor, assim cham ado, é João Jorge, m eu filho, sociólogo, durante anos funcionário do IPAC*, ocupava-se com a população da área constituída em sua m aioria por m arginais e putas. Ocupou-se sobretudo com as crianças, de parceria com a atriz Ay dil Linhares fundou para elas um teatro, espero que ainda funcione.
*Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural.
Contente com a popularidade de João entre a m olecada, prossigo com Jacques em direção ao Largo onde ele vai docum entar o desfile dos Filhos de Gandhi. O Largo está repleto de turistas franceses, descobrem o com patriota fam oso, assediam -no, aplaudem -no, calorosos: foi preciso vir ao Brasil para encontrar em carne e osso o figurão da rádio e da tevê, Jacques distribui autógrafos. Dou-lhe o troco, gozo-lhe a glória atlântica:
— Notável és tu, notabilidade universal...
Os Filhos de Gandhi, no fausto dos traj es de carnaval, conduzindo o estandarte e a cabra, ocupam o Pelourinho, cercados por capitães de areia e por turistas, Jacques assum e a direção da equipe de film agem , o batuque irrom pe, o cortej o se organiza.
Karachi, 1957
Acompanhamento
Com Aríete Soares* acom panham os em Veneza os funerais de Stravinski, as obséquias na Basílica dei Santi Giovanni e Paolo, oficiadas por m eia dúzia de padres católicos e outros tantos popes ortodoxos, uns e outros na pom pa do ritual, a m úsica do desvario, o incenso em labaredas, o pássaro de fogo nos turíbulos, o coro em língua russa, coisa de ver-se e de ouvir-se. A gôndola com o esquife singra o rio dei Mendicanti no rum o do cem itério, a m archa fúnebre se evola da nave da Basílica, cobre os canais e os palácios da Sereníssim a.
*Aríete Soares, editora e fotógrafa.
O povo dos candom blés acorre em luto, o enterro de m ãe Runhó sai do Bogun, no Rio Verm elho, atravessa a cidade em direção ao cem itério das Quintas, o acom panham ento sem elha um a cobra, desm edida sucuruj u, Oxum aré desdobra o arco-íris no céu da Bahia. Runhó m orreu às vésperas dos cem anos de idade, dias antes m andara m e cham ar para se despedir. Dois passos à frente, um atrás, os cânticos j êj es, Margarida de Yansã, feita na roda do Axé, seu m arido Aurélio, ogan de sala, o povaréu e os encantados, outro ogan do terreiro do Bogun, o poeta Jeovah de Carvalho*, lavado em lágrim as, discursa à beira do túm ulo Mãe Runhó em barca no arco-íris.
*Jeovah de Carvalho, poeta e radialista.
Nas ruas de Karachi, entre autom óveis, bicicletas, ônibus, a criança vestida de trapos em purra um a espécie de carriola arm ada com sobras de tábuas, de fabricação caseira, leva o corpo do avô, velho sem idade, sem inu, exposto ao sol, no rum o da cova rasa — sem acom panham ento, a m orte apenas, trivial.